Magia que há[Ao anjo1803]Ah anjo perdidoQue faço para que me toques?Que faço para que não me toques?Que faço que não compreendas?Que segredo resiste a tua perspicácia?AssimDo jeito que falasCom as janelas abertasCom o vento soprandoNao temes que as almas franzinasDe leveza incomumSe preciptem no abismo?Anjo de sonhos,Anjo dos sonhos,Teu segredo é meu segredo!Por onde foste,De onde vinhasEm ...
Magia que há[Ao anjo1803]Ah anjo perdido
Que faço para que me toques?
Que faço para que não me toques?
Que faço que não compreendas?
Que segredo resiste a tua perspicácia?
Assim
Do jeito que falas
Com as janelas abertas
Com o vento soprando
Nao temes que as almas franzinas
De leveza incomum
Se preciptem no abismo?
Anjo de sonhos,
Anjo dos sonhos,
Teu segredo é meu segredo!
Por onde foste,
De onde vinhas
Em algum lugar nos encontramos
Nós é que não vimos
Nós é que não vimos
E seguimos nossa estrada
E seguimos
Perdidos entre aqui e acolá
Entre seres e pedras
Entre noites e dias
No mormaço das coisas
Nos gestos alheios
Na dor que perdura
Nós nos perdemos.
E agora que falas
E agora que cantas
Um canto sincero
Na substãncia da noite
Eu te amparo, eu te consolo
Ser diferente, Ser de mil faces
Habitante ausente
Dos confins infindos
No corpo presente
Também disolvido
'Entre o hoje e o amanhã'
Eu te encontro
E te busco
Com um vazante coração
A querer te abraçar
Num lance ligeiro
Num carinho extremo
De acordo e amor...
Aqui vou parar
São longos delirios
Criações infinitas
E te deixo seguir
Te acompanhando no olhar
Mas não vá muito longe
Mas não vá muito rápido
Pois quero te ver
Mesmo perdida
A passear por aí
A não querer, mas sempre insistindo
Na vida que há...
O Mal do coraçãoO mal do coração é não aceitar
Que tudo um dia de repente termina
Que a sina de toda alegria é findar
E que no final, quando não houver
Mais nada, Ele ainda vai sentir.
O mal do coração é saber
Que não há cair do qual não levante
Que pra si inexiste o sofrer maior
E que qualquer dor, por maior que
Seja, Ele sempre pode suportar.
O mal do coração é acreditar
Que é sempre possível mudar
Que não há esperar em vão
Que um dia a dor termina
Que um dia o vazio termina
Que um dia o frio termina...
O mal do coração é aceitar
Que a vida ande com ele insatisfeito
Que o rosto se ilumine sem que
No seu interior haja real felicidade
Que seja sua conselheira a Saudade
O mal do coração é permitir
Que os pés continuem a caminhar
E o nariz continue a respirar
E os olhos continuem a brilhar
Em plena discordância com tudo
Com tudo que está a passar.
O mal do coração é esperar
Que um dia tudo mude, mude
Mesmo quando nada tende mudar.
Infinito PoemaClaro,
Por mais genial que seja o poema,
Por mais longo que seja o poema,
Por mais fiel que seja o poema,
Por mais vasto que seja o poema,
De nós ele não leva nenhuma porcentagem...
O poema escrito se transforma a cada leitura
E se adapta imediatamente a história de vida de quem ta lendo.
O poema é apenas um jogo de palavras,
A poesia segue com cada ser humano em suas idas e vindas.
A poesia não é o mar, não é o rio, não é a lua...
A poesia é o olho de quem olhar
Para o mar, para o rio, para a lua...
Na verdade, a poesia é o próprio ser humano,
Sim, cada ser humano é um infinito poema.
A imagemPelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas...
[Florbela Espanca]
I
Quando foste embora de repente
Beirei pelas fronteiras da demência,
Não sabia ser mais alguém contente,
Fiquei sem minha frágil referência
E lutei como pude contra o tempo,
Lutei para sair da estação difícil,
Mas era muito escuro o momento
E apenas via o grande sacrifício...
Refletia sobre isso sem parar...
Não tinha motivação para nada,
E Sentia varar-me uma espada
Que tenaz impedia o respirar.
Eu tentava andar pela cidade
E então via a alegria dos passantes
E chorava de modo angustiante
Sufocada por dores de saudades...
II
Mas surgiu outra noite em que dormia
Uma saída para minha aflição
Que de grande crescer já não podia
E ali veio quem um dia dei a mão
Estava dormindo na casa silenciosa
Aquela mesma em que felizes vivemos
E lá de baixo ouvi uma voz misteriosa
Dessas que ouvimos, mas nada vemos
Eu fui devagar pela escada enroscada
Na qual tantas vezes nos beijamos,
Na qual tantas vezes nós brincamos,
E que agora eu descia meio assustada
Olhei a espaçosa sala demoradamente
Analisei os objetos, nada mudado...
Parei diante de tua foto, muda, calado
Eu vi que ela estava muito diferente...
III
Não via mais teus olhos, teu nariz
Somente a silhueta ali se mostrava
E me senti por demais infeliz
Porque até assim me deixavas...
Me indagava sobre o mal que fiz,
Pois nem podia ver quem mais amava...
Segurei a cabeça desesperada,
Me invadiu o medo que tua lembrança
Dessa forma tabém fosse apagada!
IV
E voltei para cama em meu mundo
Lá pensando muito desacordei
E cansada dormir sono profundo
E foi naquela fria solidão
que em pé perto da cama te senti
A me olhar com grande comoção...
E como em sonho te encontrei,
Passou no meu rosto branco tua mão
E assim eu finalmente suspirei...
O que vai no meu poema O que vai no meu poema...
Vai o meu pensamento
O meu sonho
Os sonhos que não tenho mais...
Vai minha vontade
As vontades que tive
Os desejos que se desfizeram
Na iminência de existir
Que ficaram por aí
A esperar que os lembrasse novamente
Vai minha anulação
As impossibilidades
Certas agonias brutais
Da qual não se pode escapar
Mas que se resiste...
Vai a dureza deglutida
Por não se poder evitar.
Vai ai minha lágrima
Aquela que pensei derramar...
Vai a viagem que não fiz
Vai a morte que desejei
Vai a estrada onde fiquei
Vai o sonho de ser feliz
Vai a ilusão que tive um dia
De que tudo pudesse se ajeitar...
Vai meu mar de sonhos, imenso mar,
Vai tudo que eu queria, que quis...
E mais quis o que não pude alcançar...
Vai o amor
As coisas mais simples
As que me davam alguma alegria
Coisas tão básicas
Tão estranhas de se amar
Vai tudo no meu poema
Ele é carregado, avesso à tradução,
Tem sempre algo por trás
Sempre há um sentido a mais...
Vai o gesto que não fiz
As coisas que não pude ser
As decepções que causei
Sem nem mesmo saber
As dores que provoquei
Em quem nunca vou conhecer...
Vai meu perdão distorcido
A minha raiva que nunca cessou
Diante das coisas horríveis
Que arquitetaram para mim
Que me atingiram o rosto...
Cada golpe que não cicatrizou
Vai no meu poema,
Vai no meu poema
A reação que nunca começou...
Vai no meu poema
A mão que nunca se lançou
A me afagar num momento doído
Uma palavra que ninguém me falou
Vai o silêncio sempre ouvido
Nas noites que ninguém imaginou
Mas que sempre existiram,
Sempre meu ser se desencontrou
Por razões que não entendo
Por razões que nunca ninguém explicou.
Vai no meu poema amigos
Poucos que amealhei
Com meu jeito meio tosco
Vivendo a vida que encontrei
Que inventei com esses
Frangalhos de tudo que resultei
Vai minha gratidão
A todos àqueles que encontrei
E que me deram umas palavras
Uns ouvidos aos quais falei
Com um dilatado coração
Sob uma dor que não dissipei
Em momentos de extrema solidão
Vai minha gratidão
À todos os que me deram um empurrão
Vai no meu poema o que não sei...
Vai minha dúvida
A minha desconfiança,
Esse jeito de olhar...
Vai no meu poema sentidos escusos
Vontades de chorar
Vontades de sorrir
Vontades de gritar...
Vai tudo no meu poema,
E o que fica ainda é muito,
Eu não consigo abarcar...
biografia:
Sebastiao Alves da Silva, nasci em Barra do Corda, interio do Maranhão, o estado mais pobre do Brasil, mas isso não vem ao caso...
Me considero um homem forte, mas também fraco. Por incríveis vias do destino e de descobertas interiores acabei percebendo que gostava de dar aulas: tornei-me professor de matemática, mas também, já dei aulas de literatura, artes e religião, entre outras. Descobri a Literatura verdadeira no segundo ano do ensino média quanto tinha 20 anos, passei, por motivos vários, quatro anos sem poder concluir a terceira série primária, isso por algum tempo foi motivo de muita angústia. Atualmente sou funcionário público da rede estadual de ensino médio onde moro, trabalho também na rede particular, além disso, em cursinhos, e sou professor substituto na Universidade Estadual do Maranhão. Mas me agrada muito não fazer nada, tento trabalhar o mínimo e ganhar o máximo, mas isso é muito difícil na profissão que escolhi. Tenho pensado em aprender mandarim ou outro idioma que me permita trabalhar na China, dizem que lá eles pagam muito bem o profissional da educação, principalmente o professor [aliás, nesse sentido outro dia li um ensaio de Bertrand Russel, o matemático que ganhou o premio Nobel de literatura e que gostava de filosofia e lógica, entre outras, e lá ele dizia que no oriente, ele valorizam mais o saber, diferente do ocidente em que poder é sinônimo de ter, no Brasil nem se fala...] apesar de ter um situação mais ou menos, nada disso me satisfaz completamente, me angustia não poder continuar meus estudos de matemática, matéria na qual sempre fui autodidata, assim como na maioria das coisas que acho que aprendi, todavia no Brasil, sem título, não se chega muita longe, pois em tudo ele é requisitado. Penso muito em mudar-me, somente um grande centro pode oferecer efervescência suficiente para meu ser inquieto. Não penso em viver o resto de minha vida ministrando aulas, tenho outros sonhos guardados e que se remexem dia e noite pedindo atenção... Penso que vou viver mais uns 50 anos, e depois disso mais um bocado, época essa em que estarei ainda esperando se revelar para mim o segredo da vida, que se repetirá continuamente aos meus ouvidos... Sinto-me um vencedor, mas também sinto-me um derrotado, quando olho para a profundidade de onde consegui emergir, percebo que não foi pouca coisa, olho ao redor de mim e ninguém dos meus conhecidos conseguiu chegar tão longe, isso me deixa muito triste... Quando olho para adiante e vejo onde quero chegar, sinto que perdi muito tempo e que o mesmo se escorre em alta velocidade, e vai lá à frente e não consigo acompanhar, estou amarrado... Isso me angustia... Aprendi que tudo acontece no momento certo, independe da pressa ou da lerdeza, que façamos ou não algo para forçar as coisas, não adianta, o esforço humano é inútil, tudo está ocorrendo como deveria, tudo ao doce ritmo alheio a nossa compreensão... Sobre a poesia, escrevo compulsivamente, não há um momento sequer em que a esqueça, e todo dia escrevo algo, infelizmente desprezível, acho que levo a serio demais a 'procura da poesia' do Drummond, ainda bem... Entre os poetas de língua portuguesa que não me cansam, há dois: o Fernando Pessoa e o Drummond, o restante não consigo gostar completamente... Não sei como o Drummond escreveu uns versos tão bobos, mais a maioria de seus poemas são dignas da magnitude dos poetas universais, entre muitas desses poemas, me extasia: a máquina do mundo, e agora José, a cavalo de galope, consolo na praia, canção para álbum de moça... São muitos, quanto ao Fernando, toda sua obra poética é maravilhosa, não um verso que não seja digno de nota, dos seus heterônimos, o que mais me apraz é o Álvaro de Campos, e um de seus poemas, entre os muitos, muitos, dos seus poemas que acho mágico é o “Poema em linha reta”, para citar só esse. Eu tenho sonho de grandeza, mesmo que não seja nada na vida, esse sonho o carregarei para sempre, grandeza no amor principalmente. Não escrevo direcionado, acho-me muito incauto, aculturado, mas também não faço tanto quanto deveria para consegui a cultura clássica, ela me cansa um pouco, a moderna também... Não considero certos poemas de autores consagrados dignos de uma antologia, me cansa pensar para compreender a poesia, que, no meu duvidoso entender, deve ser uma rosa de sinestesias. Se tiver que fazer raciocínios laboriosos, prefiro resolver Equações Diferenciais, muito mais deliciosas, ou então, estudar Álgebra Moderna e Teoria dos Números... a poesia deve desabrochar-se diante dos olhos e ir direto para o coração, apenas depois disso é que paira no cérebro, gerando uma sensação de descoberta e satisfação. Nada, além ou aquém disso, é poesia. Estou sempre entre poesias e números, não sou grande em nenhuma dessas coisas, por isso sou duplamente angustiado, [sem considerar agonias de outras naturezas...], todavia, em meus papéis, é sempre possível, entre um cálculo ou outro, achar um poema, ou algo parecido com isso, ou completamente diferente... tudo me cansa, me cansa tudo que não é essencial, é como o amor, que se não for o verdadeiro amor da gente, podemos até levar, mas é sem animação... Muitas coisas poderia escrever aqui, mas faz tempo que me fala aqui na cabeça o bom senso dizendo que já escrevi demais, apesar de, até este ponto, ainda sobrar espaço para aproximadamente 14200 caracteres... duvido muito que alguém leia isso até aqui, pois a maioria dos brasileiros não tem o hábito de ler, e, além disso, como qualquer outro ser humano do mundo, sempre tem algo mais interessante para fazer do que ficar lendo essa lengalenga. Se veio até aqui ou é um humanista ou é alguém que conheço e quer saber mais sobre mim, para talvez contar como se fosse uma piada... Ou alguns daqueles que desconheço e me acham, coisa que não compreendo, de alguma forma arrogante, ou bobo, ou pseudogênio, ou qualquer coisa que lhes dê prazer em alimentar contra mim algum tipo de desgosto... mas eu, como não compreendo isso, também não me preocupo... Se você chegou até aqui pode ser um desses, ou então ser um novato que adentra nesse meu universo de relevos deturpados, mas claro que pode ser que esteja fora desses que citei, nesse caso, talvez seja completamente louco, ou um inveterado diletante da boa literatura, ou quem sabe...
sebastianmath@homail.com