Ninguém sabia exatamente o que ele fazia.
Alguns diziam que era psicólogo. Outros preferiam chamá-lo de escritor. Havia quem o tomasse por arquivista. Ele nunca corrigia ninguém. Certos ofícios existem justamente porque não cabem em palavra alguma.
Seu trabalho consistia em inventariar objetos.
Não qualquer objeto.
Apenas aqueles que sobreviviam aos seus donos.
Aprendera que quase ninguém transporta a própria dor nas mãos vazias. O sofrimento precisa de matéria. Escolhe uma pasta, uma fotografia, um relógio parado, um vestido antigo, uma mesa, um pedaço de papel. Depois se instala ali com a paciência das raízes.
Os objetos envelhecem.
As feridas, nem sempre.
O primeiro homem chegou numa manhã de chuva.
Trazia uma pasta de plástico verde, presa por um elástico frouxo que ameaçava romper a qualquer instante. Depositou-a sobre a mesa com a delicadeza de quem acomoda um corpo frágil.
Não pediu solução.
Pediu apenas que alguém olhasse.
Dentro havia protocolos, cartas registradas, comprovantes, assinaturas, respostas que nunca vieram.
Enquanto o homem falava, o inventariante percebeu o fio.
Era quase invisível.
Saía da pasta, atravessava o ar e desaparecia exatamente no centro do peito daquele que a carregava.
Quando lhe perguntaram se ainda desejava resolver o problema, seus dedos apertaram o plástico com força.
O fio esticou.
Então o inventariante compreendeu.
Resolver significaria cortar a única ligação que ainda o unia à própria história.
Anotou apenas:
“Objeto número um: pasta verde. Estado de conservação: impecável. Ferida: ativa.”
A segunda visitante chegou num domingo.
Veio de mãos vazias.
Disse que o objeto permanecia na casa da mãe.
Era uma mesa.
Madeira escura, toalha antiga, pratos gastos por décadas de almoços.
Ali, vinte e cinco anos antes, uma frase fora dita.
Ninguém mais a repetia.
Ainda assim, ela continuava sendo pronunciada todos os domingos pelo silêncio.
Enquanto a mulher falava, o fio apareceu novamente.
Partia daquela mesa distante, atravessava ruas, anos e estações, até prender-se entre suas costelas.
Ela contou que a mãe tentava, há muito tempo, pedir perdão sem encontrar palavras.
— E se ela conseguir? — perguntou o inventariante.
A mulher permaneceu calada.
Depois respondeu quase num sussurro:
— Então quem continuará carregando aquilo que fui?
O inventariante nada disse.
Há perguntas que não desejam resposta.
Desejam apenas continuar existindo.
No caderno escreveu:
“Objeto número dois: mesa de jantar. Material: madeira. Tempo estimado da fratura: vinte e cinco anos.”
O terceiro entrou no fim da tarde.
Cheirava a fermento.
Sentou-se sem tirar debaixo do braço o embrulho de pão.
Falou pouco.
Disse apenas que, todos os dias, comprava exatamente a mesma quantidade.
Não por fome.
Porque um dia alguém lhe dissera que pessoas como ele passariam a vida contando moedas.
Desde então, cada pão era comprado junto daquela sentença.
O inventariante viu o fio.
Saía das moedas, enroscava-se no papel pardo e desaparecia sob a camisa do homem.
Havia corrente passando por ele.
Quase se podia ouvi-la.
Escreveu:
“Objeto número três: pão francês. Condutor perfeito.”
Com os anos, o inventariante percebeu que seu arquivo não era composto de objetos.
Era feito de fios.
Todos diferentes.
Todos ligados ao mesmo lugar invisível.
Os tratados chamavam aquilo de ressentimento.
A palavra lhe parecia insuficiente.
Ressentimento soava como diagnóstico.
O que via era outra coisa.
Uma rede elétrica improvisada.
Cada lembrança alimentava outra.
Cada injustiça acendia a seguinte.
Cada perda encontrava uma tomada onde permanecer ligada.
Cortar o fio parecia simples.
Aceitar o pedido de perdão.
Assinar o acordo.
Fechar a pasta.
Deixar de voltar à mesa.
Comprar o pão sem levar consigo a antiga humilhação.
Mas então as luzes se apagariam.
E muitos preferem a claridade produzida pela própria ferida ao escuro de uma vida onde já não sabem quem são.
Naquela noite, depois que todos partiram, o inventariante fechou o escritório.
Guardou cuidadosamente o caderno na mochila.
Apagou a luminária.
Foi então que percebeu um fio escapando pela abertura do zíper.
Seguiu-o com os olhos.
Ele atravessava a sala silenciosa e vinha prender-se discretamente entre suas costelas.
Permaneceu imóvel por um instante.
Abriu a mochila.
Lá dentro havia apenas um velho caderno, preso por um elástico gasto.
Passou lentamente os dedos sobre ele.
Então compreendeu.
Passara a vida acreditando que inventariava as dores dos outros.
Na verdade, apenas aprendera a reconhecer o próprio fio escondido entre os deles.
Fechou o caderno.
Apagou a última luz.
E saiu levando-o debaixo do braço, como todos os outros.
Ana Fonseca Porto
no silêncio, misericórdia. ????