POEMA PARA O LIVRO DAS ÁRVORESEles ficaram na cidadeum de tesoura aparando os arbustoso outro sentadoA velha que passa é trementeagachadanem lembra quando e se o mortocaiu da árvoreAs folhas se revolteiam ao primeiro soproe Deus devagarosamente espreita- estes degraus cansam!E por que não uma catedral logo Azul? Uma sombra vagueia escondida na erva E há oferendas de TempoLourenzo Marquez by t ...
POEMA PARA O LIVRO DAS ÁRVORESEles ficaram na cidade
um de tesoura aparando os arbustos
o outro sentado
A velha que passa é tremente
agachada
nem lembra quando e se o morto
caiu da árvore
As folhas se revolteiam ao primeiro sopro
e Deus devagarosamente espreita
- estes degraus cansam!
E por que não uma catedral logo
Azul?
Uma sombra vagueia escondida na erva
E há oferendas de Tempo
Lourenzo Marquez by the sea
Se descerem até ao cais
contemplarão o anjo voador
suas axilas de nafta
- não noite, nem espessa,
o coreto se espiralou em silêncio
e o ferro forjado ainda cai
amachucando as sebes -
Dos carris do antigo eléctrico
falta a mão que os resgate
encurve
não obstante os sexos deslizarem
e as cestas o sal
da véspera
de quando o mundo
ou talvez a mafurreira larga
cavernando-se ante o fragor das batalhas
e um pano em torno
demolhado
tudo muito rente ao chão
altar
Luís Carlos Patraquim
e depois dizem que morremos
a taça perdida
os cavalos de jade
a minha espada
ainda lhes ouço as vozes
com a neblina de Agosto em Rudnik
e o cordeiro em silêncio
as mãos estão aqui
e o vinho regressa à fonte
e depois dizem que morremos
o olho intrusivo
pouco
o que vês na paisagem
se houvesse
e
dizes a palavra muda
há uma savana anjo
que te redime
ela
pietá
a invisível árvore
e tu
filho de nada
no seu colo
biografia:
Luís Carlos Patraquim nasceu em Lourenço Marques [actual Maputo], Moçambique, em 1953.
Colaborador do jornal 'A Voz de Moçambique', refugia-se na Suécia em 1973. Regressa ao país em Janeiro de 75 integrando os quadros do jornal 'A Tribuna'. Membro do núcleo fundador da AIM [Agência de Informação de Moçambique] e do Instituto Nacional de Cinema [INC] onde se mantém, de 1977 a 1986, como roteirista/argumentista e redactor principal do jornal cinematográfico 'Kuxa Kanema'. Criador e coordenador da 'Gazeta de Artes e Letras' [1984/86] da revista 'Tempo'.
Desde 1986 residente em Portugal, colabora na imprensa moçambicana e portuguesa, em roteiros para cinema e escreve para teatro. Foi consultor para a 'Lusofonia' do programa 'Acontece', de Carlos Pinto Coelho e é comentador na RDP-África.
Publicou 'Monção' [1980]; 'A Inadiável Viagem' [1985]; 'Vinte e tal novas formulações e uma elegia carnívora' [1992]; 'Mariscando Luas', em parceria com Chichorro e Ana Mafalda Leite, [1992]; 'Lidemburgo Blues' [1997 e 'O Osso Côncavo', 2005.. 'Pneuma', 2009, editorial 'Caminho'.
Foi distinguido com o Prémio Nacional de Poesia, Moçambique, em 1995.
luiscpatraquim@sapo.pt