ALEGAÇÃO
Um cais deserto sob a morte me justifica.
A queda brusca de uma história
Antiga,
O deus secreto a que a memória
Aspira.
Mundo suspenso,
Terno e cruel
Para quem fica.
Pequeno sonho
De papel.
*
CAMBUTA
Há um pigmeu no teu corpo
Curandeiro que me limpa
Da consanguinidade adivinhada
Nas entranhas do benefício
Que legitima os avanços
Mais nada garante.
Há um ferreiro nesse pigmeu
Um pouco mais para Norte-Nordeste,
Muito além de Tombuctu, aquém
Do que me dizes sem saber
Que Amani, a grande rainha,
Entre limalhas nos legou
O poder sobre rios e cumes
Aores e ciúmes.
Muito além de Tombuctu.
Muito aquém dos estalos
Da língua silenciosa
Das areias khoi-san
No sal dos meus olhos mistos.
*
PERPLEXO
Fábula maravilhosa...
E no entanto não posso
Ser aquilo que eu invento.
biografia:
Poeta, fotógrafo, crítico e professor universitário, foi também editor. Vive entre Angola e Portugal.