A Mineira e o Poeta II. Por Vilma Cunha Duarte, poeta del mundo. 
 

Os estudiosos de Neruda dizem que a melhor biografia do grande poeta chileno foi a sua obra, marcada pela emoção. Pulo aquele nome de batismo que soa, e é muito esquisito.

Mocinho, se livrou daquilo, e fez muito bem. Não combinaria com a sua assinatura de poeta.

Pablo Neruda! Pura musicalidade.

A primeira publicação, aos 13 anos, data de 18 de Julho 1917, no jornal La Mañana, de Temuco, com o artigo: “Entusiasmo e Perseverancia” O que ele nunca deixou na teoria.

Cônsul, Embaixador, Senador, Professor de Francês, foi antes de tudo, “O Poeta” ao longo dos 71 anos de vida instigante.

E como amou! Coração de poeta já nasce com reservas extras para guardar o amor.

Seus biógrafos citam apenas cinco mulheres nas suas vivências apaixonadas. Tenho cá as minhas dúvidas.

Albertina Azócar, o amor adolescente no Liceu.

Josia Bliss, “La Pantera Birmana”. Caso de uns meses de paixão.

Maria Antonieta Hagenaar. Com quem se casou em 1930, teve uma filha doentinha, Malva Marina, que morreu aos 8 anos. Separou-se em 1936.

Dizia que “Maruca” [adorava apelidar as escolhidas] era enorme, e necessitava comer muito.

Ainda casado, conheceu a argentina Delia del Carril, “Hormiguita”, bela culta e dona de posses.

Amaram-se apaixonadamente, entre lençóis e tertúlias.

Em 1946, deslumbra-se com Matilde, “La Chascona”, [descabelada], no Parque Florestal. O breve encontro entrelaçou os destinos da cantora e do poeta.

Reencontra-na em 1949, no México. Ela, com suas atividades artísticas, ele com a sua intensa participação político-literária, e Cupido fazendo das suas.

Em 1953 começa a construir “La Chascona”, para se encontrar clandestinamente, com a amante.

Pronto o ninho, em 1955, passam a viver juntos.

Em 1966, legaliza a união com a amada.

A bela e idolatrada musa deixou em testamento todos os bens herdados de Pablo Neruda para uma Fundação que lhe leva o nome.

Uma glória para o Chile, ter o poeta maior custeando as três maravilhosas casas-museu em Santiago, Isla Negra e Valparaíso.

Tenho uma inveja danada de boa da Matilde.

O que seria melhor na vida que o amor de um grande e romântico poeta?

Seguir as trilhas de Neruda no Chile, foi uma deliciosa aventura literária.

Sensível do jeito que sou e me permito, pude sentir na pele a presença dos eternos amantes em “La Chascona', Santiago; “La Sebastiana” em Valparaíso, e na exuberante casa de praia em Isla Negra, onde eles dormem “entre los párpados del mar y la tierra”.

Morre o homem em 23 de setembro de 1973, imortaliza-se o Poeta Nobel.

“Sim Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam... Prosterno-me diante delas... Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as... Amo tanto as palavras ... As inesperadas ... As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem ... Vocábulos amados ... Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, l, orvalho ... Persigo algumas palavra... São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema ... Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas... E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as... Deixo-as como estalactites em meu poema; como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda ... Tudo está na palavra ... Uma idéia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu ... Têm sombra, transparência, peso, plumas, pêlos, têm tudo o que se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes... São antiqüíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada... Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos... Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas Américas encrespadas, buscando batatas, butifarras, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca mais, se viu no mundo ... Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas grandes bolsas... Por onde passavam a terra ficava arrasada... Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras. Como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes... O idioma. Saímos perdendo... Saímos ganhando... Levaram o ouro e nos deixaram o ouro... Levaram tudo e nos deixaram tudo... Deixaram-nos as palavras'.

Texto final, do livro: “Confesso que Vivi – Memórias”, traduzido por Olga Savary.

Vilma Cunha Duarte, [Cónsul - Araxa - MG]

http://www.poetasdelmundo.com/verInfo_america.asp?ID=825


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