Marilia
Gonçalves
Fresques
Les as-tu vus ces vieux passants Arborant leurs batailles, leur rêves Les yeux emplis de songes Les mains vêtues de gestes Une histoire sur leurs lèvres Les as-tu vus passer Résistants à l’automne Voletant irréels dans un monde concret Les as-tu vu passer [ce cortège sublime Dont ils ont le secret] Ce sont les vieux poètes Qui passent en nos regards L’éternelle jeunesse agite leur pensée Les éternels amants du matin et du soir Nous les dirions absents, notre vision nous trompe De toutes les batailles ils sont bien présents Ils portent un étendard de mots et de couleurs Ils traversent le temps sillonnant la parole Impromtu symphonie jaillissant dans leur cœur Sonate de poèmes colombe qui s’envole Ils sont à nos cotés et cheminent tout seuls Nous ne saurons jamais la racine carrée du poids de la parole
Marilia Gonçalves
Humaine Incertitude
Vous avez de l’humain ce côté déplorable de vouloir tout savoir sans effort et sans temps Et d’en parler à tort élevant sur du sable Un château que les vagues effacent en s’en allant Pourtant ce sont vos craintes, humaine incertitude Ce besoin d’être aimé et d’être reconnu Qui dessinent vos lèvres sur de vaines paroles Et vous donnent cet air absurde et incongru. La nature de l’être est de rester soi-même Laisser inaltéré l’enfant qui vit en nous Pour cueillir au passage chaque parole éparse Dans l’éclat de la nuit y faire fleurir la boue. Amonceler savoir et toute connaissance Sans perdre pour autant le regard ébloui L’héritage sacré venu de notre enfance Semant sur chaque page l’extase de la vie. Marilia Gonçalves
Abril é uma urgência Universal Abril é uma urgência universal O mundo fraterno a construir O uivo a florir no vendaval De maculadas pombas a cair. Abril sobre o vácuo do sentir Mais um Abril aurora flor de luz Incendiando os olhos do porvir Na vastidão a previdência de Argus. Um grito do pensar nova razão Estridência de seara a repartir Onde cada se humano seja irmão E a evidência o tempo a construir. A bruma do pensar que se desfaz Ribeiras transparentes a correr Para que possa enfim surgir a PAZ Onde a lei final será viver!
Marília Gonçalves
ACUSO Cavalo de vento Meu dia perdido O meu pensamento Anda a soluçar Por dentro do tempo De cada gemido Com olhos esquecidos Do riso a cantar Quem foi que levou A ânfora antiga Onde minha sede Fui desalterar Sementeira de astros Que o olhar abriga Por fora dos versos Que hei-de procurar Quem foi que em murmúrio Na fonte gelava Essa folha branca Aonde pensar Quem foi que a perdeu Levando o futuro Por onde o meu barco não quer navegar Quem foi que manchou a página clara Com água das sedes Que eu hei-de contar Quando o sol doirava As velhas paredes Da mansão perdida De risos sem par Quem foi que levou Os astros azuis Do meu tempo lindo Meu tempo a vogar Por mares de estrelas Vermelhas abrindo Quando minhas mãos Querem soluçar Não mais sei quem foi só sei que foi quando a noite vestiu o dia que era E todos os sonhos Partiram em bando Fugindo de mim e da primavera Mas há na memória Da minha retina A voz que se nega A silenciar Com dedo infantil Erguendo a menina Diante do réu Em tempo e lugar!!!
Luz
Cada parto foi um porto Cais da vida ancoradouro à Sombra dum país morto Nasceu meu menino de ouro. Nasceu entre mãos de esperança No meu grito de ternura Quando dei cada criança Ao país da noite escura. Mas cada parto trazia O meu grito de certeza Cada vida que nascia Era uma semente acesa Uma luz que começava à beira do corpo sonho E que crescia e cantava A terra livre do sono. Era um olhar de criança A ver a fímbria da vida A espelhar a confiança Sobre a água acontecida. Era mar de movimento No início da montanha A soltar asa de vento Em cada cantiga estranha. Era ainda uma criança Acabada de nascer Que para o futuro lança Olhar de homem de mulher. Cada parto cada porto Cada cais cada cidade Cada sorriso absorto Despertava à claridade. Porque uma criança traz No ventre da madrugada O caminho para a Paz! Porque uma criança tem No primeiro eco da vida A imagem que sustem A viagem conseguida. Cada parto foi um porto Um país uma cidade A escrever em cada corpo Pra sempre fraternidade. ...
Negro irmão
Um olhar firme e directo Para dizer o teu nome O respeito só completo Ao dizer a tua fome. Se falar da tua história Dói a quem lhe sente a culpa Se em mar de tua memória Tua inocência resulta; Se te escrevem e descrevem Sem chegar ao que tu és É que ficaram aquém Da essência das marés. Lavraste a história do mar Com o teu nome cativo, Mas trazes no teu olhar O mundo em que sobrevivo. Tu sim, conheces o preço Do amor e da família Perdidos desde o começo Dos que eram tua matilha. Tu que és ainda o olhar Da frescura juvenil Que semeaste no mar O teu coração viril Tu meu irmão, que és o filho Da mãe de todas as mães Trazes nos olhos o brilho Dessa ternura que tens. Tu que da tua pobreza Fazes riqueza de tantos E abres a tua mesa Ao causador de teu espanto Tu que sabes repartir Dando do pouco que tens E que choras a sorrir Porque sabes donde vens; Eu quero ser tua irmã Tua mulher, tua amiga Pra levantar amanhã Ao que hoje o pensar me obriga. Mas eu nem sei se o mereço... Apesar de querer o esforço Pró mundo futuro e moço. É a ti negro, que falo É a ti que me dirijo Pois cada verso que calo No porão do esconderijo Não vê nunca a luz do dia Não chega à tua verdade Nem à voz que principia Numa nova sociedade. Tu tens o valor da terra Trazes o respeito em ti Numa alegria sincera Que extravasa quando ri. Como é pequeno o poema Para dizer coração Pra cantar pele morena Do negro que é meu irmão.
Monto cavalos de prata
Monto cavalos de prata Agarro crinas de vento Minha égua desbravada Salta barreiras de tempo cascos a fender as nuvens minha montada exultava pássaro de fulgentes plumas sobre seu dorso poisava. Sobre a garupa de cinza Meu corpo nu avançava Como réplica da brisa Ou nauta que mar levava. Minha égua água marinha Inebriante licor Meu olhar nu te adivinha Corolário aberto em flor. Venci atalhos de frio No teu valente arquejar Meu cavalo corredio Rio a procurar o mar. O teu orgasmo de luz Incendiou as estrelas Numa explosão que seduz Versos, pautas, aguarelas. Contigo vôo e voando Atinjo o êxtase enfim Ó meu cavalo de prata De asas abertas em mim.
Cavalgam pequenos potros sem ânsia de bem ou mal de tanto correr despertam o instinto vegetal. Uma poldra toda branca na imensidão que é a noite pariu aceso galope entre águas, ervas, areias. Era um vôo parecido com um bibe de criança erguido em nuvens azuis.
Na floresta adormecida sobressaltaram-se breves as folhas que pareciam pequenas aves que leves ao menor sopro do vento mínimo silêncio triste estremeciam no balanço de braços mudos e verdes.
Mas em assomo surgido lesto, inesperadamente os potros foram partindo filhos da luz e do vento. ---------------------------
Fresques
Les as-tu vus ces vieux passants Arborant leurs batailles, leur rêves Les yeux emplis de songes Les mains vêtues de gestes Une histoire sur leurs lèvres Les as-tu vus passer Résistants à l’automne Voletant irréels dans un monde concret Les as-tu vu passer [ce cortège sublime Dont ils ont le secret] Ce sont les vieux poètes Qui passent en nos regards L’éternelle jeunesse agite leur pensée Les éternels amants du matin et du soir Nous les dirions absents, notre vision nous trompe De toutes les batailles ils sont bien présents Ils portent un étendard de mots et de couleurs Ils traversent le temps sillonnant la parole Impromtu symphonie jaillissant dans leur cœur Sonate de poèmes colombe qui s’envole Ils sont à nos cotés et cheminent tout seuls Nous ne saurons jamais la racine carrée du poids de la parole
Biografia: Marilia Gonçalves
Nasci em Lisboa 1947, na avenida da República. Menina comecei a dizer poesia fui notada na escola, pela directora, senhora de tendência republicana [assim se dizia na época, o que era dizer muito já] convidada a festas locais, declamava igualmente em todos os aniversários ; um dos primeiros poemas que disse foi «A Balada da Neve» de Augusto Gil,[ mas as crianças Senhor, porque lhes dais tanta dor, porque padecem assim] do mesmo poeta e quase na mesma época disse também «O Fiozinho da Fonte» e ainda hoje a minha grande dúvida sobre a existência de Deus vem do sofrimento das crianças. Com cerca de doze anos era muito menina quando certa tarde ao voltar do liceu deparei em vendedor fortuito, numa bancada de livros usados com livro de banda desenhada de edição brasileira, sobre Castro Alves, sua obra poética, sua vida, sua obra humana . Na primeira adolescência, nascida em família antifascista, em pleno salazarismo, e guerra colonial, como ficar alheia ao todo generoso de Castro Alves. Com ele aprendi a força da palavra, eu que dizia poesia desde muito menina, seleccionando sempre poemas com sentido de fraternidade e libertação, compreendi, melhor que nunca, a força da poesia. Hoje mulher, poeta, não esqueço minha veemente paixão pelo menino poeta libertador de escravos. Castro Alves não foi apenas grande poeta, embora menino foi um grande homem. E ainda hoje ao visitar os sites que lhe fazem referência os meus olhos marejam-se, e a mesma voz que ouvi menina balbucia: meu amor. Vim para França em 62, para preparar a vinda de meu pai, eis preso político perseguido pela pide, aqui comecei a trabalhar aos14 anos. Mais tarde na Associação dos Originários de Portugal disse poesia, Nesse mesmo palco onde Luís Cília empunhando guitarra, denunciava a guerra colonial Fui militante anti-Salazar no Bidonville De St Denis, [amarga escola, o sofrimento de irmãos, e das crianças, acima de tudo, o delas] Com 19 anos casei e voltei a Portugal . Aos vinte anos morreu o meu primeiro filho logo após o nascimento. Em 73 Fiz parte da direcção do Círculo Cultural do Algarve Em 1977 por razões de saúde de um filho, viemos para Paris e por aqui ficámos. Vim a Fazer parte do Rádio Clube Português de Villejuif, Voltei ao palco em espectáculos onde eram actuantes principais Paco Bandeira, Carlos do Carmo, Arlindo de Carvalho, compositor para quem escrevo poemas-letra de canções. Tenho 3 filhas e um filho, que adoro. Tento saborear a vida no que vai dando de bom e mau, para avançar em mim, mas contemplação de paisagem de alta beleza, pode transformar meu estado de espírito e levar-me a verdadeiro júbilo. Em 1985 faleceu meu pai, esse extraordinário filtro de humanidade, que sempre o mundo me parecia mais belo e são, enquanto existiu. De temperamento anarquista, o meu amor pelo próximo é meu autocontrole e acima de tudo esta esperança- herança, a mais valiosa que meu pai me transmitiu, de que o ser humano, leve o tempo que levar, acabará por encontrar a sua via. E será finalmente fraterno e bom.
poesia01@wanadoo.fr
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