María
Toscano
1. asas de palavras
nestas asas de palavras me transportas, Maga.
e eu agradeço-Tas: exulto de exaustão
desprendo-me, pelo ar, em vozes-força; em sílabas de espanto
de futuro;
em silêncios regados pelo humor aceso na mais profunda Alegria.
e eu agradeço-Tas: sérias e metódicas, ordeiramente
reordenam o desconcerto da interrogação; repetidas - sem repetição -
esclarecem miudezas do dia-a-dia, escarnecem das merdinhas
quotidianas, enaltecendo o breve, o enquanto e a contemplação;
redondas, lustradas, torneadas, implodem o Aqui até ao Tudo,
reconquistam passos e laços, sementeiras, eiras e searas e futuro e ilusão; insinuosas, silenciosas e cálidas, guardam bestas e deuses da confrontação: calam desafios irreverentes
a prometer e consagram o Altar da Fala da sedução.
nestas asas de palavras me passeias, me vagueias
do risco certo à incerta mão.
e eu agradeço-Te: Mago sopro, Maga luz
- agradeço-Te o Desprendimento e a Contemplação.
IN «A 'madre'da casa da avó / Os Nomes Infinitos do Ser», Cbra, Pé-de-Página Editores, 2002.
2. [sem título]
na dobra das visões te protegi.
com lacres de espuma emoldurei esta alma tresmalhada.
cabias redondo, ofegante. num murmúrio do silêncio me esvaí. doutros recantos o soro da promessa me recompunha em olhos e vastidão. Enderecei alto Muito, o manuscrito da ENTREGA; da Luz o flori, folheei, folheei, recortei e recomeço.
a funcionária sorriu-se da urgência. outros pestanejamcumplicidades.
num recanto estás escrito que és p'ra mim;
do outro ressona a vaidade.
num papel de prata toca-me o aqui;
retalhos de notícias antiquidas volteiam seres-me a calamidade.
emoldurei esta alma.
tresmalhada te cobiço e alicio numa promessa de presenças, de poesia.
átomos da agonia da espera andam por aí à solta sem pruridos. regresso à entrada da casa e percebo meus pés fugidos, fugidios. levo a mão à fechadura certa e faltam-me os dedos dos sentidos. olho a sacada soberana sobre a rua e os passos se emaranham nos precipícios do chão, da tábua que estalou pla mão dos espíritos sabidos. na chaminé oscilam caçarolas esvoaçam os púcaros de asas livres, o repolho e a abóbora para o canto do ausente quintal. o vinho risca, a sangue, o ar e detém-se, lívido, ao meu passar. de telhas encontro o leito adormecido e as torneiras pedem lite ao acordar. nas guelras do goraz bailam sereias e dos potes de barro das azeitonas bandoneons : « - ¡Volver!, <¡Volver!» ressoam.
o doce do moscatel inaugurado implora, a algum pai, com Buarque: «este silêncio todo me atordoa atordoado eu permaneço atento...»
já os livros rodam de mãos dadas falam-me as letras de que gostaste: tacteias, mastros, juncos, e crianças : Eugénio em acenos gravados.
recuo: ao fundo, o corredor, o baú do futuro me aguarda: ferrolhos do imenso linho corais de mar do norte teu entranhado incenso se exalam se exalam pelas frestas da não casa.
deslizo-me: de parede faço-me em algas lacres de espuma fatais águas e risos me amparam. e minha alma na dobra das visões nos acasala.
In «A Utopia da Coragem», Viseu. Palimage Editores, 1999.
3. [sem título]
amo ainda que as marés se afoguem de lágrimas vertidas sem qerer
Inédito, 2000.
biografia: Maria [de Fátima] Toscano, que se considera uma buscadora da Fala Poética, tem vindo a crescer - desde Maio de 1963 - alentejana de Campo Maior, em ligação encantada com gentes e lugares [Abrantes, Ilha do Sal, Águeda, Alentejo, Lisboa, País Basco e Coimbra]. Tal percurso de encantamento obriga a várias aprendizagens intermináveis, entre as quais, a da artesania do desengano. Assim, nos anos 70-80, participou em/dinamizou organismos culturais estudantis: 1978 - Liceu José Falcão: Iº. prémio de poesia/Curso Geral, IIºs. Jogos Florais; e Núcleo de Teatro co-fundador dos Encontros de Teatro na Escola [Dir.: Melo Alvim]; 1980 - Curso de Iniciação do TEUC [Or.: Deolindo Pessoa]; 1981 - integra o elenco das 3 primeiras peças de IBIS, Teatro Universitário - ISCTE [fundado e encenado por Paulo Filipe; Prémio de Grupo Revelação/81 com «Drama em Gente - Exposição Fotográfica sobre Fernando Pessoa»] ; formação em voz e canto [Edith Piaf, Mahlr], e de actor, por profissionais. Meados de 80-90 - cantou e fez animação de diversos bares/restaurantes [Lisboa e Coimbra]: música popular portuguesa e brasileira, fado; cafés-concerto [canções de Piaf e textos próprios]; desde 1993 - tem vindo a aperfeiçoar o canto do Fado de Lisboa em actuações pontuais. 1991 - Na tertúlia de 8 de Março, no BOUTEQUIM, interpretou canções de Piaf, a convite de Natália Correia. 1998 - Participação breve numa canção do livro-cd «Poemigas. Versos y Canciones [1990-1997] - poesias de José Luis Arántegui; músicas de Miren Ariño [ed.: Espanha, «del Lunar», col. Del Nagual : 1998]. 7 Livros de Poesia Publicados - 'do Vagar e da Memória', 1997, Palimage Ed.; 'as palavras contidas', 1998, Editora Minerva de Cbra; 'para além das coisas' -1998- e 'A Utopia da Coragem', 1999 - Palimage Ed.; 'a madre da casa da avó / os nomes infinitos do ser' - 2002; http://www.ces.fe.uc.pt/publicacoes/rccs/Recensoes_revcriticas/recensoesrccs64.pdf - e 'a artesã do desengano', 2003, Pé-d-Página Editores; 'Portugalito', 2002, Palimage Ed.. Integração em Antologias ou Colectâneas de Poesia: 'Memória da Palavra. Antologia Poética. 1º Encontro de Jovens Poetas de Coimbra', 1995, [Secretaria de Estado da Cultura do Minist. Cultura/Dir.Reg. do Centro]; 'Poesia para Timor Loro Sae', 1999, Palimage Ed.; 'Colectânea de Poesia por Coimbra', 2001, Pé de Página Ed.; 'Coimbra Encantada', 2003, D. Quixote [Apoio: CCNC 2003]. Presença on line: está/esteve presente nalgumas páginas de poesia on line - www.artepar.com.ar/solopoemas.htm; http://www.palavreiros.org/festivalmundial/home.html;
integrou a escrita on-line de «o poema mais longo em língua portuguesa», o fulgor da língua - www.ofulgordalingua.com ;
aprofunda a escrita poética em espanhol, desde Nov/2003, in
http://www.elistas.net/lista/poetas-zaguan/ ;
e o seu blog de intervenção estética e cultural é http://sulmoura.blogspot.com/
Desde 1997 - tem criado e realizado o que designa como 'rituais poéticos : sessões diferenciadas da prática declamatória, fundadas no cruzamento experimental de técnicas teatrais participativas do público-parceiro. Destacam-se [para além dos 6 rituais expressamente concebidos para a apresentação pública dos seus livros]: 15/11/1997 - «Poemas e Cantigas de Rua I»: animação nocturna de rua [com companheiros da Poesia] na Alta de Coimbra, a partir do seu inédito «o Sinal Anunciado do Nascimento» [Apoio: CMC; Co-organização: «Solar Marias do Loureiro» por inauguração das novas instalações]; 8/3/1999 - «Mulheres e Poesias» : Co-organização com «Palimage Ed.» e «Ed. Minerva de Coimbra» da sessão de leitura das poetisas editadas por aquelas [Livraria-Galeria Minerva [Cbra]; 1/02/2000 - «POESIA TORGUIANA - uma nova dependência tóxica»: sessão de divulgação de Miguel Torga com Joaquim Basílio, [foyer do TAGV, Cbra]; 23/04/2003 - «Maria Toscano volta a atacar: 'QUEREMOS PAZ!': Semana Cultural AEISMT, [Garden Bar, Cbra]. Tem participado em diversas sessões de leitura de poesia a] quer m Feiras do Livro i] de Cbra, 2000 e 2003; ii] de Viseu, 2000; de Lisboa, 2003; b] quer em Sessões de Leitura dos Poetas da Oficina de Poesia - FLUC, Julho/2003 [ Centro Cultural D. Diniz, Cbra; Livraria 100ª. Página, Braga; c] quer, nos últimos 4 anos, nas sessões de Apresentação de livros de outros Autores, a convite destes; d] 30/11/2005 - concepção e realização da Sessão Comemorativa dos 70 anos da morte de Pessoa - Biblioteca Municipal - Casa Mun.da Cultura de Coimbra [a convite da C Munic Cult e de Rui Mendes]
No campo profissional, é Socióloga desde 1986 - ISCTE, Lisboa. Ensina no Instituto Superior Miguel Torga de Coimbra desde Janeiro/1990 e - após o Mestrado na FCSH-Univ. Nova/Lx., 1993 - prepara, no ISCTE, a dissertação de Doutoramento sobre 'mulheres, socialmente designadas como pobres-excluídas, em processos de requalificação social'.
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