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    Aniceto 
    Remisson 


    Divergências

    Sendo o beijo sutileza,
    o teu beijo já não sinto,
    pois ao beijar-te pressinto
    que em meus lábios outro beijas...

    Se me imploras abraçar-te
    e em meus braços te enlaço,
    tudo é vão, pois o abraço
    não é meu: `stou noutra parte...

    Com razão ficamos mudos
    na frigidez da noite calada.
    Sabes que para mim já não és tudo;
    sei que para ti também sou nada...



    Vestuário

    Roupas, roupas,
    vestimentas,
    enganos do corpo,
    engodos, farsas.
    Panos, panos,
    linhos grossos,
    fininhos,
    obstrução de caminhos...



    Áurea


    Faço poemas
    em versos negros
    e versos brancos
    para que todo poema
    seja livre.


    Nostalgia

    Helena? Helena? Onde 'stás agora?
    Apesar do pouco tempo da partida,
    a lembrança me castiga, faz ferida
    e a tristeza solidária me namora.

    Onda calma de sono me invade
    quando oscilo sobre a rede no quintal.
    Teus beijos... teus abraços... teu rosto divinal...
    que saudade, Helena! Que saudade!

    Tremor vago o meu corpo já domina,
    ao sentir que a bela fantasia
    s'esvaece logo que o sonho termina.

    E quem entende a minha dor, o meu desgosto
    e a escassez que há em mim de alegria,
    é o zéfiro que banha o meu rosto.

    Transição

    É tão fria a cova e tão escuro o horto
    onde depositam meu corpo doente!
    _ Como a cova é fria se o corpo é morto?
    A partir de agora só a alma sente...

    Ah! Esta cama rude onde estou deitado
    e este quarto escuro e tão bem fechado!
    Tento levantar, mas estou tão cansado...
    Que rumor é esse ali no quarto ao lado?

    Há um jardim bem perto: sinto o odor das flores.
    Quero levantar, mas estou tão cansado...
    Estou tão cansado mas não sinto dores.
    E o rumor aumenta ali no quarto ao lado.

    _ Desçam o caixão! _ diz alguém lá fora.
    Quem morreu enquanto estive dormindo?
    Bem perto da porta ouço alguém que chora,
    lamentando a sorte de quem vai partindo.

    Quero levantar, faço força tamanha
    mas tenho as mãos inertes e o corpo duro.
    Agora o padre reza numa língua estranha,
    enquanto fico preso neste quarto escuro.

    Está caindo terra sobre o telhado.
    Parece que o mundo está desabando...
    Falta-me o ar neste quarto fechado
    e lá fora há uma multidão chorando.

    Sinto um tremor leve, um breve arrepio...
    Já quase nada mais estou sentindo.
    Por que não me tiram deste quarto frio?
    Alguém morreu enquanto estive dormindo.

    É tão fria a cova e tão escuro o horto
    onde depositam meu corpo doente!
    _ Como a cova é fria se o corpo é morto?
    A partir de agora só a alma sente...

    Poesia classificada em 2º lugar no Prêmio Cataratas 2006, da Fundação Cultural de Foz do Iguaçu, e menção honrosa no Prêmio Cidadão de Poesia, de Limeira - SP

    ***

    Herança

    A confecção deste poema foi um caso à parte, diferente dos demais poemas meus, que normalmente levam horas, às vezes dias para ser finalizados. 'Herança' veio de uma golfada; nasceu, se muito, em trinta minutos, já pronto pra se mostrar ao mundo.

    E eu morro a cada dia
    quando cada coisa morre.
    Outrora Deus me socorria;
    agora já não socorre...

    Vai um pássaro, coitadinho,
    de hirtas e opacas asas.
    Vai com ele um bocadinho
    da minha alegria tão rasa.

    Vão-se o amigo, o cão, o gato, o boi,
    tudo vai nesta infalível jornada.
    Só fica a angústia do que foi
    na minha memória cansada.

    Até um jovem filho se vai
    sem mesmo saber p'ra onde,
    na vã liberdade que atrai
    e mil armadilhas esconde.

    Nenhuma alegria perdura
    e todo gozo é passageiro.
    Só de tristeza há fartura
    todo dia, o ano inteiro...

    Quando eu me for [e será breve!]
    levarei comigo esta carga.
    Não quero que alguém herde
    tanta lembrança amarga.

    ***

    Súplica

    Reza por mim, amor.
    Reza por mim
    e não serei um mero grão disperso,
    e não serei um anel de Saturno
    desgarrado, solto no espaço-tempo
    da Eternidade.
    Que aqui tudo é mistério,
    tudo é descoberta,
    há outro sentido,
    outro conceito de Existência.
    Aqui não há espera,
    só a lembrança fugaz,
    só a vaga imagem do teu rosto
    na moldura do Infinito.
    Não te deixei, amor,
    roubaram-me de ti,
    despejando-me no vácuo do tempo.
    Reza por mim,
    fumaça disforme ora diluída,
    ora rejuntada,
    assumindo formas várias e inúteis,
    bailando aos dissabores
    da inconsciência.
    Reza por mim, amor.
    Imagina-me como um lago
    de águas puras, serenas,
    e assim hei de ser
    para matar minha sede
    de ti.

    biografia:
    Remisson Aniceto

    Nasci em Nova Era, pequena e aconchegante cidade do interior de Minas, próxima à Itabira de Drummond. Desde muito cedo tomei gosto pela leitura, incentivado pelo meu pai que não dispensava nem bula de remédio. Comecei a escrever aos oito anos e pouco depois lia alguns clássicos da literatura brasileira na biblioteca pública [não tinha condições de comprar livros]. Sempre imaginei que algum dia atravessaria as montanhas para ver o Drummond _ afinal, morávamos bem próximos _ mas, como ele já me havia advertido bem antes, 'tinha uma pedra no meio do caminho'. Alguns anos depois ele viajou e nunca mais reapareceu. Meus textos [poesias, contos, crônicas e resenhas] podem ser lidos em alguns sites, como o Leia Livro, A Garganta da Serpente, Texto Livre, Recanto das Letras... Há pouco tempo participo de concursos literários e em 2006 consegui o 2º lugar no Prêmio Cataratas, com a poesia 'Transição' e uma menção honrosa no Prêmio Cidadão de Poesia, de Limeira, com o mesmo trabalho. Em 2007 tive uma menção honrosa no Prêmio Filogônio Barbosa [Colatina - ES] com o soneto Classificado. Alguns sites e jornais de pequenas tiragens já estão divulgando o meu trabalho. Descoberto o caminho, agora é seguir em frente.

    remisson.luz@terra.com.br

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