Joao
Batista do Lago
DIÁLOGO DO TEMPO E DO ESPAÇO Escrito por joaopoetadobrasil em dezembro 30, 2007
DIÁLOGO DO TEMPO E DO ESPAÇO
© De João Batista do Lago
Eu que não mais estou aqui Aqui estou para agradecer As mesuras das tuas palavras Que nem foram escritas para ti Mas para um tempo que já não há Que muito distante está - seja de mim; seja de ti.
Obrigado a você que me lê agora. Confesso: gostaria de saber por quê comigo choras! Estes lamentos descritos noutros tempos; De aventuras e desventuras sem laços, Duma alma que passou pela vida sem espaço, Que nunca sentiu o frescor do próprio ungüento… Por que merece, agora, roubar esse teu tempo?
Naquele tempo, ó meu caro viajor, O mundo era um labirinto de dor. Talvez por isso estranhes o langor da poesia Reflexo do horror que havia em toda periferia Macabra terra e residência da miserável guerra Que nunca se dera a oferecer como anjo da paz Que sempre se fizera de toda vida só quimera.
Sinto muito, meu caro. E como o sinto Não poder dar-te outra imagem senão esta. Bem gostaria de te falar de gloriosas festas… Bem gostaria! Mas se assim fizesse Não me restaria outro apelido: farsante! Tomaste toda poesia para cantar o onirismo presente, Porém esquecestes do real Ser, ser o principal ausente.
Quando vês que reclamo em mim a criança Podes crer, estava sufocando sem o ar da esperança Quando assistes ao meu lamento em pranto Crê, era a presença do meu eterno [então] desencanto Já tanto e quanto cansado do grito [sempre] sufocado Pela cicuta-da-europa ou mesmo pela cicuta-do-norte, Que me oprimia tanto e quanto até me levar à morte.
Se nessas páginas me vês [por vez] ensandecido Era o grito mais profundo do ser em mim esquecido, Era o choro sem lágrimas pelo canto varrido Das almas penadas. Se me vês assim… Assim eu fora! Uma voz ao vento feito relincho de jumento em cio Louco para gerar no ventre do barro e da água Toda lavoura que se pudera agasalhar a fome e o frio.
Sim, meu caro, sempre me fora assim: princípio, meio e fim. Mas se princípio fora; meio não me fizera, não me contivera; Do fim apenas me restara o sabor de nada entender… E aí sepultado dentro do meu próprio ser Embalsamado e esquecido na câmara sarcófica do não-Ser, Trancado pela chave do sagrado na palavra mortal Aprendera que todo sofrimento resulta do pensar animal.
É possível, sim; ser tudo mentira tudo o que falara. É possível nem mesmo acreditar no mal que tanto e quanto causou. Sim, tudo é possível, bem sei! Quem sabe fora apenas mentira! Só não é possível esquecer que a vida de si esqueceu, Que a tantos e quantos deu e a tantos e quantos roubou: Uma rosa murchou; uma flor não floresceu. A vida morrera? Mas nem mesmo isso regara o coração dos indulgentes.
Lê-me, então, ó viandante de todos os tempos; Lê-me com os passos do pensamento de um romeiro contrito. Mas, se porventura vês no meu escrito só dor e lamento Rogo-te: tomas essa estética do sonho de um poeta maldito Como a hóstia sagrada da realidade da vida, pois Mesmo que ela te cause dor ou qualquer ferida Há-de ser pela eternidade, não teu delito, mas o teu veredicto. __________
O SER DOS MEUS OLHOS Escrito por joaopoetadobrasil em dezembro 29, 2007
O SER DOS MEUS OLHOS
© De João Batista do Lago
Meus olhos seguem o ser que se esvai No esfumacento entardecer Onde irá o meu ser? Que visões irão atravessar? Onde irão os meus olhos? Meu ser? Quem sabe! Eu não sei. Amanhã, meus olhos já não mais seguirão ninguém No escurecer da entardecer! Onde estará meu ser? Onde estarão meus olhos? Quem sabe! Quem soubera? Quem saberá?
- Eu não sei. __________
OBLATAS Escrito por joaopoetadobrasil em dezembro 24, 2007
OBLATAS
© De João Batista do Lago
Sinto deste Natal apenas o gosto amargo do fel Não vejo nenhuma escritura que fale dessa obsessão Não há literatura que relate tamanha vergonha Dessa criatura louvada pela torpeza dos homens Que buscam uma vez mais a desrazão da riqueza Na perene sutileza de louvar o Filho do Deus
Possivelmente não terei nenhuma razão Para contrariar os senhores donos do mundo Que fazem festa para obrar toda dominação Que do engodo do mercado fazem uma só oração Razão suprema dum povo deserdado Fiéis professos da procissão dos adestrados
Sou de todos assim louco defenestrado Mago não guiado pela estrela do consumo Indigno de viver num mundo administrado Lixo na festa do menino-deus-mercado Que a todos vê como oradores encantados Fiéis oblatos da religião dos engalanados
biografia:
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