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    Jania 
    Souza da Silva 


    Anverso do folhetim

    Sai à rua...
    deparei-me com sua alma
    [anjo profano].
    Tomei-a em minhas mãos...
    sem nenhuma vergonha
    - desnudei-a por inteiro -
    perscrutando seu íntimo.
    Surpreso! Vi por entre meus dedos
    - derrame -
    panfletos, jornais, pasquins...
    de sangue era seu peito
    num charco sobre o limbo da cova fria.
    Dentro, restos crus de memória
    na ignorância da deslembrança
    do final do dia.
    As manchetes - notícias do outro dia -
    nada revelam de novo
    [sempre pré-fabricadas]
    - paradoxo -
    'as colunas sociais puras fanfarras dos endinheirados
    o disse-me-disse da politicagem sempre cega aos descamisados
    e - a imoralidade do guloso e incorrigível tráfico
    a ceifar cada vez mais almas...'
    A sociedade desmancha-se perdendo seu brio, seu brilho
    esteio da esperança.

    Ah! Rua menina mulher
    barco à vela sem horizonte
    meretriz sem prostíbulo
    ocaso do dia...
    Em ti, depositei minhas esperanças de melhores dias.
    Mas, sem nenhum compromisso traístes minha confiança...

    He! Rua menina mulher
    parideira sem ofício
    ocaso do dia!

    Banalidade da vida

    Guirlandas de sangue em tapete sobre o chão
    [anúncio do luto em corações
    no dia consagrado à adoração]

    Causa-me tamanha angústia
    o pranto derramado pelas ruas
    roubando a alma às mães
    no seu sagrado dia...
    São mulheres órfãs de filhos
    na perplexidade da nação.
    Nação violada brutalmente
    pelo insano de ovelhas perdidas
    abocanhadas por velhas raposas ladinas
    na explosão do peito varonil da nação.
    As ruas ressentidas trancaram-se
    solidárias ao choro das mães
    os igarapés - barreiros da consciência - silenciaram
    o canto dolente num seco soluço
    os apitos das fábricas quedaram-se numa súplica impotente
    engasgados num gemido diluído, perdido...
    e as chaminés dos abrigos férreos
    perplexas
    perceberam a Esplanada dos Ministérios sempre surda à qualquer prece.
    Choro os mau homens, anjos caídos
    a sugar na surdina grandes obras do coração.
    No corre-corre da vida, o grave erro da omissão
    instala no santo ninho, o caos do fim do mundo.

    Acordai da letargia povo meu!...

    Sorriso em flor reabre cortina da esperança
    na roda apocalíptica mundana...
    não aos desalmados sanguessungas...
    repúdio aos egoísticos espíritos imundos
    verdadeiros usurpadores ilegítimos
    do trono do mundo.

    A insuportável dor das mães órfãs
    quando esquecida ou ignorada
    tanto pela igreja quanto pela democracia dos homens
    continuará a derramar-se a cântaros
    sobre as mesmas ruas ressentidas
    pois de saudade eterna cobriu-se o luto
    'esfaqueado' pela banalidade irresponsável dos que fazem o jogo da vida....

    Hilariante travesti

    Ah! Como gosto do brilho hilariante de travesti da noite
    quando vaga-lumes em fantasias de néon
    debruçam-se nas sacadas do pecado
    e mostram suas carnes sem nenhum pudor.
    Sem qualquer aviso, minha máscara de alabastro
    forjada na argamassa da conveniência
    cai, permitindo entrever flores da primavera
    pequeninos grãos do meu reprimido íntimo.
    Pinga restos de mel - gota a gota -
    do canto da minha boca
    outroramente visitada pela taça dos teus beijos
    quando o tico-tico cantava vinte e duas vezes
    e minhas carnes gemiam de desejo.
    Ah! Como gosto desse brilho hilariante de travesti da noite
    - sem vergonhas - descarada - trocando cueca por salto alto
    sisudez por sorriso debochado de boneca assanhada
    só para realizar a flor da luz vermelha disfarçada - aprisionada
    no abandono da clausura, que é o casulo do meu ser
    para enfim - libertar-se rumo ao infinito -
    estonteante borboleta dos meus segredos.
    Ah! Como gosto desse brilho hilariante de travesti da noite
    confidenciando marotamente alguns dos seus obscuros segredos...

    biografia:

    JANIA SOUZA
    , poeta, escritora, artista plástica, ativista cultural, Diretora de Eventos da Sociedade dos Poetas Vivos e Afins do RN - SPVA/RN, tendo organizado a Antologia Literária publicada pela entidade, volumes 01; 02; 03 e 04. Participação em várias coletâneas nacionais. End.: travessa São Cristóvão, 1771, Morro Branco, Natal, RN, Brasil, CEP: 59.056.295. Telefone: [84]3221.3095. Email:

    janiasouza@uol.com.br

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