Alberto da Cunha Melo
[1942 - 2007]
RELÓGIO DE PONTO Tudo que levamos a sério torna-se amargo. Assim os jogos, a poesia, todos os pássaros, mais do que tudo: todo o amor.
De quando em quando faltaremos a algum compromisso na Terra, e atravessaremos os córregos cheios de areia, após as chuvas.
Se alguma súbita alegria retardar o nosso regresso, um inesperado companheiro marcará o nosso cartão.
Tudo que levamos a sério torna-se amargo. Assim as faixas da vitória, a própria vitória, mais do que tudo: o próprio Céu.
De quando em quando faltaremos a algum compromisso na Terra, e lavaremos as pupilas cegas com o verniz das estrelas. .
CASA VAZIA Poema nenhum, nunca mais será um acontecimento: escrevemos cada vez mais para um mundo cada vez menos, para esse público dos ermos, composto apenas de nós mesmos, uns joões batistas a pregar para as dobras de suas túnicas, seu deserto particular; ou cães latindo, noite e dia, dentro de uma casa vazia.
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CANTO DOS EMIGRANTES
Com seus pássaros ou a lembrança de seus pássaros, com seus filhos ou a lembrança de seus filhos, com seu povo ou a lembrança de seu povo, todos emigram. De uma quadra a outra do tempo, de uma praia a outra do Atlântico, de uma serra a outra das cordilheiras, todos emigram. Para o corpo de Berenice ou o coração de Wall Street, para o último templo ou a primeira dose de tóxico, para dentro de si ou para todos, para sempre todos emigram.
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José ALBERTO Tavares DA CUNHA MELO, poeta, jornalista e sociólogo, nasceu em Jaboatão, Pernambuco, em 08 de abril de 1942. Filho e neto de poetas, fez parte do Grupo de Jaboatão que, conforme o historiador Tadeu Rocha, constitui a nascente da Geração 65 de poetas pernambucanos. Dentre os fatos que marcaram a sua intensa atividade cultural, destacam-se a sua atuação nas Edições Piratas [1979 a 1984], movimento editorial alternativo que publicou mais de 300 títulos de autores novos e consagrados, a criação e organização do Prêmio Anual de Poesia Carlos Pena Filho [1982 e 1983] e a editoria das páginas do Commercio Cultural, do Jornal do Commercio [1982 a 1985]. Na área oficial, exerceu vários cargos públicos, destacando-se a de Gerente de Bem-Estar Social do SESC - Delegacia do Estado do Acre [1980 - 1981]; duas vezes Diretor de Assuntos Culturais da FUNDARPE - Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco [1979/l980 e l987 a l989 e o cargo de Diretor do Arquivo Público Estadual de Pernambuco [1988]. Na virada do século [2001], foi incluído nas antologias de edição nacional, Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século [2001] e 100 Anos de Poesia - Um panorama da poesia brasileira no século XX. Sua obra, Meditação sob os Lajedos [2002], mereceu o quarto lugar da primeira versão do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira No livro Yacala [1999], Alfredo Bosi, coloca a sua obra à altura das dos poetas, Jorge de Lima, Carlos Pena Filho e João Cabral de Melo Neto. Em grande parte de sua poesia, no aspecto formal, destaca-se uso o sistemático do metro octossílabo, o mais rara em língua portuguesa, conforme anota o poeta e crítico César Leal. Atualmente o poeta trabalha no setor de Obras Raras da Biblioteca Pública Central e é editor da coluna Marco Zero, da revista Continente Multicultural. No site pessoal do poeta, é possível obter mais informações: Obra publicada: Círculo Cósmico [1966]; Oração pelo Poema [1967]; Publicação do Corpo [1974]; Dez Poemas Políticos [1979]: Noticiário [1979]; Poemas à Mão Livre [1981]; Soma dos Sumos [1983]; Poemas Anteriores [1989]; Clau [1992]; Carne de Terceira com Poemas à Mão Livre [1996]; Yacala [1999]; Yacala [2000]; Um Certo Louro do Pajeú [2001]; Um Certo Jó [2002]; Meditação sob os Lajedos [2002]; Dois Caminhos e uma Oração [2003].
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