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Jos Lus Mendona
Nacionalidad:
Angola
E-mail:
kumbiyambundu@gmail.com
Biografia

José Luís Mendonça

Desde que apareceu na Terra, em 24 de Novembro de 1955, no Golungo Alto, em Angola, José Luís Mendonça fez-se homem de profissão. Realiza, com ética e deontologia profissional, o trabalho dum humanista.

É poeta e jornalista por amor à arte de pintar a Vida nos seus ínfimos detalhes. Antes de tudo, escreveu e escreve contos. Publicou algumas obras de poesia, que se podem resumir, no cômputo geral da Arte, a um único livro.

Colecciona desenhos feitos a tinta de esferográfica.

Para além disso, gosta de viver na água do mar, como os grandes navios, e de conduzir na auto-estrada a 100 à hora. Respeita as leis de trânsito: usa cinto de segurança.

Estudou Direito na Universidade Católica de Angola e aprendeu a beijar nos filmes. 

 

TERRA SEM COR

 

Acontece que também eu

nasci na América. E me sentei até

na cadeira onde sentou

Abraham Lincoln. Me chamaram

primeiro presidente negro.

Nessa terra onde as flechas do grande chefe índio

Touro Sentado

já não caçam bisontes

fui rei da música pop. Num é que me chamaram

o negro mais branco da América?

Depois da dipanda visitei a casa

do meu pai lá nos Alhais.

Um miúdo que passava falou olha o preto.

Serei eu um pretérito imperfeito

que só fala pretoguês?

Aqui na seio da minha mamãe África

me chamam mestiço, laton e outros

conglomerados étnicos. Até branco me chamam.

Uma vez uma garina me disse

tens a cor da sorte.

Em São Paulo me fecharam

de negão no gueto e me pintaram

outra vez de preto preterido.

Um dia no aeroporto

Charles de Gaule passaram

a minha identidade a pente fino.

Pensaram que eu era tunisino.

 

Pois é! Se ninguém sabe ao certo

se sou preto, se sou negro

se sou branco, ou branco-negro

latão fundindo as cores de toda a Humanidade

se sou as duas, três ou quatro farinhas sem sal

desse pão preto que o diabo amassou

e deu a comer aos anjos

nesta era prodigiosa

em que os comboios têm asas

 

se ninguém sabe ao certo o que eu sou, então

o tom da nossa pele é esse sonho

que um dia Martin Luther King nos sonhou

TERRA SEM COR.

 

Luanda, Out.-Nov.2013

 

ENCONTREI BRANCOS

A COMEREM NO MEU PRATO

 

Encontrei brancos a comerem no meu prato.

O meu prato era só funge com uma tira

de carapau seco mal passado

nas brasas mesmo assim

os brancos comiam e comiam só ainda

me deixaram cuspe na boca.

Fui ver não eram nada brancos

eram mazé chineses com marcas

de aviação extraterrestre nos dentes amarelos

que fazem as nossas casas, as nossas hortas e os

nossos hospitais e as estações

de caminho-de-ferro assim nos venderam

know-how em troca de petróleo.

Mas mesmo antes de o petróleo baixar eu vi

com os meus próprios olhos o hospital rachou

a estação lá no Huambo rachou oitenta rachas

e o chinês ria ao passar na cova

que o camião shacman dele fez na estrada

Luanda-Dondo. Lhe falei xé só chinés

você lá na China é assim que trabalhas? Mas ele

só ria não falava petróleo, não falava mwangolê

só falava chinês faz tudo angolano paga.

E eu a pensar que vira brancos

comerem o meu prato de funji

com uma tira de peixe carapau seco e mal

passado nas brasas.

Afinal eram chineses e nem vinham só de Beijing

eram chineses com marcas

de aviação extraterrestre nos dentes amarelos.

 

PERDÃO, POVO ANGOLANO!

 

Isto não é um conto de fadas que vos conto.

Não há aqui nenhuma poesia.

Isto é uma hipérbole de parto que eu tive.

 

Tive uma menina quase tive

na adulta indiferença do autocarro

da placa do aeroporto.

 

A menina nasceu morta e mal me viu falou

mi dexa sua fia-da-puta.

O meu coração tocou o chão

que a menina tinha no lugar do coração.

Quantos anos tens? Ela tem quatro

eu sou a tia dela, a mãe dela mi deu pra lhe toma conta

lá na Lunda.

 

Não é nada minha tia, sua fia-da-puta.

 

Dona desculpe mas esta menina não é sua sobrinha.

É mesmo já disse foi a mãe dela que me deu

pra lhe toma conta lá na Lunda.

 

A menina reuniu as penas da alma

abriu uma asa partida de doer o mundo

não é nada minha tia, sua fia-da-puta.

Então o autocarro pôs-se a rir

da asa da menina que era eu

estar partida as portas se fecharam

e o avião roçou os céus

sem que lhe doesse a asa bué partida

da menina que não queria ir pra Lunda

com a fia-da-puta

vestida no rigor de tia dela.

 

Há muito que pari essa menina já sem asas

mas a minha alma engravida todos os dias

aquele autocarro e ainda oiço as hienas

rilhando os dentes de riso.

 

Há muito que pari essa menina já sem asas

mas a minha alma sobe no avião do remorso

o seu porão abre uma mala da insónias já passaram

doze anos quem será hoje

a peça da índia que a tia fia-da-puta

trocou por dólares?

 

Perdão, Povo Angolano

por ter deixado vender a tua inocência

nesta escravatura de não sermos quem sonhámos

aqui mesmo onde a morte ri na nossa cara

sem que lhe doa a asa bué partida 

da menina dos teus olhos.

Perdão, Povo angolano!

Perdão, Povo angolano!

Perdão, Povo angolano!

Perdão, Povo angolano!

Perdão, Povo angolano!

Perdão, Povo angolano!

 

SUBPOESIA

 

Subsarianos somos

sujeitos subentendidos

subespécies do submundo

 

subalimentados somos

surtos de subepidemias

sumariamente submortos

 

do subdólar somos

subdesenvolvidos assuntos

de um sul subserviente.

 

SER POETA

 

Ser poeta é ter mafumeiras

com rios no dongo dos dedos.

 

É não querer ouro por ter

todo o ouro do mundo

nos ossos em vez de tutano.

 

É ser muito melindroso

como um posto de polícia antipolícia.

 

É ser um rio de barro

no bico de uma andorinha.

 

Mesmo com o drinque na mão

o poeta não bebe

na roda de gente chique.

 

O poeta anda sempre bêbado

de coisas que não existem.

 

O poeta é tão marginal

como um candongueiro sem carta

de conduzir esta vida.

 

O poeta é tão sonhador

que chega a sonhar que não sonha

o sonho que sempre sonhou.

 

O poeta é tão aluado

que ouve o som da marimba

na chuva que cai no telhado.

 

Ser poeta é ser incapaz

de matar ou de virar

os olhos na quinda do povo.

 

Ser poeta é ter mafumeiras

com rios no dongo dos dedos.

 

Nos Céus de Frankfurt, 12 de Setembro

Aachen e Berlim, 19 e 20 de Setembro de 2015

 

SANGUE, SUOR E LÁGRIMAS

 

Sangue, suor e lágrimas.

Esses três generais de ossos calcinados

com os olhos encardidos de terror

e a coragem suspensa do fio das baionetas

finalmente nos levaram por entre

os anjos de lama mortos no campo de batalha

até ao quartel general do inimigo.

 

Acossámos e matámos o inimigo.

Arrancámos unhas e dentes aos que suavam

perfumes de latente informação encriptada.

 

Capturámos uísque capturámos maruvo

capturámos latarias expiradas e um paiol de munições

das grandes fábricas que matam este mundo.

Sedentos de glória, batemos os cascos nas comunidades

como se fôssemos lendas de kifumbes primitivos. 

Comemos em fila indiana todas as mulheres.

As mamãs. As crianças. As avós.

Canibalizámos o fogo sagrado dos lares

as colheitas dos sonhos e a arte de brincar.

 

À noite acendemos bêbadas fogueiras

e cantamos marchas militares

como no tempo de Ngola Kiluanji kiá Samba.

 

Quando acordámos

o quartel general do inimigo

estava recheado das mesmas

misérias e grandezas que havíamos

deixado no nosso quartel general.

 

Fomos enterrar os mortos:

só então vimos na face do inimigo

a nossa própria face enlameada de

sangue, suor e lágrimas.

 

COMO UM SACO DE SAL

 

O africano está a escorrer

como um saco de sal

somos filhos do crude e a cinza

de um sol eterno negoceia nossos ventres

quando nos deitamos noite e dia

de orelhas cortadas pela guerrilha.

A preto e branco nos cassumbularam

os dentes no siso e no

comboio dos mortos a infância

do pólen sitiado toma assento.

E içam gruas de vazias bocas o porão

dos nossos sonhos a escorrer

como um saco de sal.

  

EXISTÊNCIA POPULAR GENERALIZADA

 

Nossa memória gravada a corte

de diamante e a compasso

de rios de ouro negro não recorda

como ficaram magros os ventos

dos punhos cerrados do povo.

Crescemos mutilados como a noite

pela farol das baionetas espetado

até ao osso irreversivelmente negro do asfalto

e uma voz acérrima de mil águias

nidifica em nossos peitos nunca mais

“eu vou morrer em Angola

com arma de guerra na mão”.

 

ESSE PAÍS CHAMADO CORPO DE MULHER

 

Fundo um país com os fonemas imprevistos

no roteiro do teu corpo de mulher.

 

Um tigre espreita

a inocente plumagem de um pássaro

poisado na colina do teu púbis.

 

Os teus seios forjam nos meus lábios

o paladar íngreme da pedra subterrânea.

 

Então nasço asas nos ombros como as tangerinas mecânicas

que Leonardo da Vinci anteviu nos seus esquissos.

 

Diamante de carne que as redes do tempo cristalizaram

na geometria incisiva dos meus versos.

Coral de azeite finíssimo.

Demorada galáxia de metal ideográfico.

Marcaste o meu destino com o traço de sal luminoso

do teu andar de rumba.

 

País selvagem

que o trote mitológico da savana anuncia

sobre o verão alucinante do asfalto

me derrotas com as armas da tua cópula fulminante

e me sepultas como um faraó calcinado

no sarcófago apertado do teu sexo

onde navega um concerto de peixes doces como o mar

branquiando a palavra nascitura entre as vogais do meu esperma.

 

UMA MULHER CAMINHA SOBRE O MAR

 

Amanhece Uma mulher caminha sobre o mar Aos pés dela

arcadas de água lisa desenrolam pergaminhos

e cem mil olhos de crianças nos submarinos atómicos

jogam ao zero-zero a breve noção de ser

Dos seus flancos voam palavras ainda húmidas

no rastro azul deste poema que ninguém escreve

Eu deito-me com ela na esteira branca do dia

Ao longe veleiros sobre a menstruação dos peixes

escutam a cal dos nossos intestinos

Tutela-nos um espírito sóbrio de palavras

E os mortos sobem à tona da água para ver

como nasce o poema neste lugar limpo de sangue

 

GOSTO DE TE AMAR PELA MANHÃ

 

Gosto de te amar pela manhã

após a lavagem das maçãs

do rosto e outra fruta ainda mais

secreta à luz acrílica do sol

 

Gosto de te amar pela manhã

quando a chama azul da Terra te aquece

os milhos do corpo onde os meus dedos começam

a brotar as amarras de um novo país.

 

PODE SER QUE O MUNDO

ACABE NA SEMANA QUE VEM

 

Pode ser que o mundo acabe na semana que vem.

O que é que eu posso fazer senão conhecer até à exaustão 

todas as coisas que fazem de ti um verão denso e humífero?

 

Cantar sem vacilar por exemplo esse teu ar breve

de pequena vissapa de luz.

 

A mim pouco importa o destino do universo

saber se os planetas estão na mão de algum deus subatómico 

ou se um meteorito beija a Terra por amor ou por acaso.

 

Pode ser até que o mundo se acabe na semana que vem.

A mim basta conhecer

uma a uma essas colónias de sede e de êxtase

que o teu sangue construiu com apoteose e presciência

em cada ossatura do teu porte

uma a uma essas luas térreas de sedução

que a savana do teu riso faz refém em cada sequência do teu

andamento galáctico.

 

A mim basta saber que a simples historicidade do teu cio

sempre desenha um pendor de pássaro

na frágil película da minha humanidade.

 

Pode ser que o mundo acabe na semana que vem.

Macacos me mordam se mesmo assim eu não te levo (hoje ainda)

nos meus ombros a chupar gelado de múcua.

 

DE LUANDA ATÉ POEMA

 

terça-feira à tarde no meu carro a tua blusa vermelha é um bilhete postal de luanda até poema

 

o fogo do dia papoila aves sobre o mar dos teus olhos. há casas de areia preta na areia preta dos teus dedos. dentro delas, comuto as penas dos mais ilustres criminosos – os que mataram crianças em hiroxima para testar a bomba atómica – em técnicas de amedrontar a eternidade. as tuas unhas amassam os frutos da minha ciência.

 

quando sorris, chove ouro das fábricas de sol no início das manhãs e as larvas das borboletas ainda não sabem dizer o teu nome. se te amo? amar é nada. eu quero é conhecer os municípios da tua alma. beber os pequenos charcos de chuva do teu sofrimento. arrancar os devassos deuses colados à mucosa da tua vagina. gosto de ouvir o grito silencioso do milho a crescer na lavra dos teus lábios quando me beijas. gosto de te chamar coisas que só as árvores se chamam quando estão para cair os cajus já amarelos como o cheiro novo de um vestido de criança. se isso é amar, então amar deve ser bué fixe. de qualquer forma amar nunca fez sentido. de tanto amor tanta morte anda no mundo sem eira nem beira. nunca a morte caminhou ao meu lado. por isso, chego ao pé de ti com os ossos brancos de ansiedade. se te amo?

 

SÓ PARA TE VER PASSAR

 

A manhã vestiu óculos de eclipse

só para te ver passar

a polícia já não penteia o povo em cada esquina

só para te ver passar

os automóveis sobem os passeios possessos de calundús

só para te ver passar

até o kota Mbumbi com suas águas seculares subiu no embondeiro

só para te ver passar

os antonoves aterraram nas casas do Cazenga

só para te ver passar

o governo decretou feriado nacional

só para te ver passar

garina do Makulusu, atingiste o meu coração com um    morteiro 120 quando fui à rua

só para te ver passar

poema mais puro e mais belo, queimei os meus versos, já não  faço mais poesia

só para te ver passar.

 

 

 

 


 

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