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Alice Caetano
Nacionalidad:
Portugal
E-mail:
alicedcaetano@gmail.com
Biografia

Alice Caetano

Alice Caetano

Alice Caetano é portuguesa. Nasceu a 30 de Agosto de 1959. Professora do 1º Ciclo. Publicou poemas na Imprensa Regional durante anos. Integrou a associação AJEB – Associação de Jornalistas e Escritores da Bairrada. Pertence ao Grupo Poético de Aveiro. Tem colaborado em antologias de poesia portuguesa. Publicou o livro de poesia Depois do Ninho, a Água em 2008. O livro de prosa poética Maçã de Zinco em 2011. O livro “Arranja-me um Emprego” em co autoria em 2013. Fez programas de rádio onde divulgou poetas portugueses e internacionais. Promove eventos literários.

 

Mulher de Arame
A não-mulher, antes de chegar a manhã, vai amassar o pão nas
gamelas do contrato, com a barriga a parir anilhas e parafusos, em
ritmo acelerado e com os tímpanos a libertarem leites
condensados e açucarados, antes que chegue o sol, porque o sol
pode abrir as janelas.
No dia seguinte, são as espumas encarquilhadas, a passar debaixo
dos pés, sobre os mosaicos dos pátios com desenhos de rotação e
translação, que convergem para a extremidade da beleza
involuntária, mais o perfume do sabão, aberto, no pântano das
estátuas de arame.
Por isso, não me parece que esta mulher seja realmente mulher,
mas antes asa peneireira das torres e, só, durante um instante
antes da morte (o tempo que dura a maquilhagem).
Anseia que passe o inverno, por causa da inquietação que é secar a
roupa no varal. E vai correndo sempre, enganada pelo horóscopo,
quase em estanho, nunca mulher.
É o saiote, o toque do adufe, a menstruação, o pelourinho, a
grinalda, o fermento.
Sem orgasmos, sem lágrimas, sem pérolas, sem nunca ser quase
estátua.
É uma silhueta atrás do avental, que se assume ao sonho da
evasão.
Extenua num idílio que é insustentável.
A pastora do imenso.
Morre todos os dias, na escuridão do jardim.


Alice Caetano, in ANTOLOGIA DA MODERNA POÉTICA PORTUGUESA,
42 AUTORES (Seda Publicações, Porto, 2013)


Ruínas


Na casa onde nasci, já morriam as paredes salgadas.
O movimento dos ponteiros era lento e ferrugento.
A chaminé fumava e fumava sem intervalos.
Havia formigueiros.
Havia bolor nos biscoitos.
Havia o prolongamento da utilização.
Reconduziam-se os dias sem pensar que a casa
[estava a morrer.
Faziam-se as compotas sem percebermos que o sótão
se desmantelava, desde o cerne e desde as chagas dos pregos.
Havia um contacto físico com a consumição.
Um contacto moral com os labirintos do calendário.
Na casa onde eu nasci, também nasceu a minha mãe.
Depois, as janelas emperraram nas dobradiças.
E as tardes de sol, que só existem quando somos alegres,
[conspiraram.
Ruínas, fora das crisálidas, como toutinegras.
Alice Caetano


In “Arranja-me um Emprego”


Um cabide na garganta
A mãe gosta dos filhos  só quando anoitece, porque antes, está um
homem-sapo  na  lareira,  e  um  cabide  familiar  pendurado  nas
paredes interiores da casa. São as casas. Têm conflitos familiares e
estremecem.
Estremecem:  do  amor  para  os  gritos.  Os  gritos  flecham  pelas
chaminés  e  pelas  brechas  até  às  outras  casas  e  formam -se
quadriláteros e abóbadas num geoplano de fios em estanho.
Se eles quisessem estavam sempre quietos, se pudessem...
Mas, o conflito é viscoso, cresce no abdómen e floresce através das
sobrancelhas e dos lábios mordidos pelo espelho.
A mãe engole os filhos e adormece. Está o homem-sapo no levante
do sobrado, porque é o seu lugar amarelecido pela idade.
Pela manhã, a mulher-sempre-grávida, vomita os filhos, ou então,
se  lhe  apetecer,  vomitará leopardos  e  salamandras,  de jorros,  em
cima das estrelas da sua pele em jejum.
Alice Caetano
In Maçã de Zinco

 

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