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VICENTE PEREIRA DA SILVA
Nacionalidad:
Brasil
E-mail:
Biografia

UM CANTO

Canto o pranto do homem que não vejo
canto o desejo recôndito dos humildes
canto a bravura dos que madrugam e passam fome,
eu canto o homem,
do dia-a-dia, da noite, da esperança,
canto a vingança sem ódio e
a fartura sonhada na boca da criança.
Canto o pó do esqueleto anônimo e dos famintos,
canto o amuleto, a figa, a tábua salvadora da loteria,
canto a heresia dos irmãos tinhosos
e a rebeldia dos inconformados.
Canto os do lado, os fora do trilho, os deserdados
da história que o tempo não perdoa.
canto aquele irmão da academia da rua,
canto o adulto, o arauto, Gentileza
e o indulto da pena já cumprida,
canto o homem da lida
e vômito do sistema, dos atônitos
que apodrecem na cadeira panorâmica
e mordem a gengiva engelhada das línguas obscenas
dos que dominam a ogiva.
Canto os reclusos involuntários
A mudança de rumo,
O desequilibrar o prumo,
canto o acaso que prende o bandido do judiciário
que vendeu a alma e o código ao bicheiro,
canto o idílio da fome e do dinheiro,
que um sonha e outro sacraliza,
canto o fardo, a fila das madrugadas,
o gado sem gula, sem guia, sem guizo.
Canto a tristeza do canto do passado
e o presente sem futuro não gozado
dos que constroem seus muros sobre o lodo ,
canto os urros dos que comem o lixo dos monturos
da civilização desigual,
o engodo do sinal que a venda não vislumbra,
canto o caos, a sombra moribunda,
a fúria que rasga o primeiro raio,
e espatifa a cabeça do lacaio,
canto a certeza de que o canto não é só canto,
é a leveza que explode o germinar de tudo.

[2006]

DEVASSA

Todo dia descem brios, águas de um brasil sombrio,
e o intruso derrama a avidez sobre essa terra,
suprime ipês, mognos e jatobás,
a ong prega,a batina reza,
de boa fé e olho bem aberto,
o deserto.

Todo dia, rios, essências e patentes voam,
nas autorizações e projetos, com o aval da elite cinzenta
da colônia e o louvor da miséria que financia
a gula secular, sem naus ou mar revolto,
de discurso solto,
para ouvidos e bolsos dos próceres da sustentabilidade cabocla
que cura a diarréia verborrágica do astronauta.

Todo dia, o balanço mercantil urde o caminho,
do desatino e a commodity engorda o olho azul da corja,
expunge o homem,
sub-homem,
o não-certificado homem,
para a tocaia de novos eldorados,
e afogado na lama periférica, náufrago da macro-drenagem moral do BID,
não vê a comoção do âncora,
o deglutir do lácio,
da tradição,
da mezinha,
o espírito da terra, do homem-terra,
pirateado,engarrafado,
com código de barras,
no cupuaçu nipônico,
na rapadura germânica,
na conferência antropológica,
na novidade imagética do ritual Kanela.

Todo o dia a ilha flutua,abre o ventre
ao olho sutil da guerra mapeada,
não vê murchar a criança,
olhos tostados, infância retorcida,
perder-se nas caieiras e na vida,
de fornos e fogueiras da estrada,
sumir na curva,
da aldeia ou do rio,
na gravidez da lua,
ou da rua,
abocanhar a sobra misericordiosa do iate de Cousteau,
captura de lente e palavra.

Todo dia, a onça foge ao cerco do Neo-latifúndio,
do olho-fuzil azul do mundo,
da pilhagem dos diabos sugadores dos últimos dias,
que compram suíças, holandas e reservas,
vendem seu deus-espelho e jugo ao nativo,
na freira-manchete de Anapu do New York Times.

E a pátria,em liquidação, via internet,
torra a floresta,
troca Chicos, Canutos e Casaldáligas, conspurcada,
por parcos cobres, envaidecida com a foto na Spiegel,
da menina, da corça e da ministra
ao irromper o fogo, que
vacila entre rezar a cartilha,
apertar a matilha,perder o posto,
ou morrer de desgosto em seu travesseiro de freira.
E a História vira a página,cunha um novo mapa,
na sexta economia do mundo.

[Alma Assoreada, 2007]

ELOGIO À LUXÚRIA.

Corpo é preciso, alma imprescindível.
Luxúria é atributo, divino e carnal
não é só momento,
é a pulsação genital do tempo,
é pensamento, é todo o tempo, é tempo sempre.
Desde os primórdios do tudo a mente despe-se,
sempre, antes do corpo, corre,
rente à corrente,recorrente,
rubra do desejo, inconsciente, incongruente,
pelo corpo, pelos, cerebelo,
de tudo se apodera e apossa,
sutil, crescente.
Não morre nem amarela como a rocha intempérica que esfarela,
ou despenca do abismo e sedimenta,
pois a mente nunca assenta,
E mesmo decomposto o corpo,
em toda parte semeado, reposto,
é sempre recomposto.
Luxúria é entender que nasço,
cresço, viço e morro de ar,
de tiro ou masmorra,
dentro de mim mesmo,
solitário, a esmo,
como o boticário que inventa o aroma
ou o bruxo que deglute o idioma que não entende
e pensa que é duende, dono dos arquétipos.
A luxúria é dom poético,
que o olho escuta e o coração consome, densa,
luxúria é de anjo, de homem,
de hoje, de antanho, do lobisomem da menina,
ardente fosforesce a verve, dissipa o brilho de navalha
aplaca o coração do fauno após um beijo.
É a cal, a malva, calha calma que refina o pó da lama,
trina, turva ou cristalina
e tisna a alcova e quase sempre alva,
lava a palma pura, alvíssima levedura,
fermento aquoso do primeiro desejo.
Luxúria é o rio que alisa a margem,
corre, ribanceira que fogosa entrega-se, escorrega
Presa fácil do rio caudaloso,
Que como a alma do poeta experimenta,
o laço, o verso, o gracejo
e a ela entesa
e são uma coisa só,
uma densidade,

a outra leveza.

[2008]

biografia:
VICENTE PEREIRA DA SILVA

Geólogo de profissão, Vicente Cariri, na verdade,Vicente Pereira da Silva, nasceu em Barbalha [CE], em 14/06/1952 e mora atualmente na Bahia. Sua poética é crua, instigante, humana, evoca o amor, provoca a ira da injustiça. É um cordel de reminiscências, um olhar despe a realidade e tem rumo incerto, a alma do homem. Dentre as influências, cita Graciliano, Maiacovski, Patativa do Assaré e Brecht.Membro da União Brasileira de Escritores - UBE, lançou em 2007 o livro de poemas Alma Assoreada. Participou de várias coletâneas, a última delas, Antologia Pórtico 3, de 2009.

vicente_cariri@hotmail.com

 

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