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Carlito Lima
Nacionalidad:
Brasil
E-mail:
Biografia
BEATRIZ

Voc chegou s 10 horas e 10 minutos da noite de 10 de junho, nmero cabalstico. 10 o nmero de Deus. Geninho, seu pai, assistiu ao parto. Ao sair da barriga de Carla imediatamente a enfermeira colocou tubos no seu nariz, ato contnuo, sua mozinha esquerda puxou os fios que lhe incomodavam. Foi um primeiro gesto de rebeldia, de grandeza, de independncia. Sua av Vnia, comandando a famlia, aguardava a chegada no berrio. Emocionei-me ao lhe ver enrolada, apenas o rosto descoberto, seus olhos alegres me encararam, senti uma silenciosa troca de bem querer no nosso olhar. Maior emoo.
Afinal, Beatriz, do latim 'a bem aventurada', significa: 'Aquela que faz os outros felizes. Pessoa disposta, capaz de alegrar a todos e a si prpria. D nova luz aos ambientes que freqenta. Esprito crtico, capaz de distinguir com clareza o certo e o errado'.
Est vendo? Minha querida neta veio ao mundo cheia de qualidade e beleza. Ontem foi sua estria, brilhante e radiosa, na vida. Aqui de minha varanda contemplo seu primeiro dia de vida no rigoroso inverno nordestino, cu azul, nuvens brancas divide, no infinito horizonte, o verde esmeralda do mar da praia da Jatica, seu privilegiado primeiro habitat.
Querida neta, amada Beatriz, nunca fui homem de dar conselhos, como voc nefita na arte de viver, seu av pode explicar alguma coisa de serventia. Existem alguns seres humanos superpoderosos, quase divinos, so os poetas, eles sabem dizer a vida como ningum, sua linguagem a do corao, por isso eles sempre tm razo. Um poetinha de nome Vinicius de Moraes nos anos 60 cantava: 'A vida arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida'. Tempos depois Gonzaguinha deu ao mundo essa preciosidade: 'Viver!... E no ter a vergonha de ser feliz... Cantar e cantar e cantar. A beleza de ser um eterno aprendiz... Ah meu Deus! Eu sei, eu sei que a vida devia ser bem melhor e ser... Mas isso no impede que eu repita... bonita, bonita... E bonita...
isso menina Beatriz, a vida cheia de altos e baixos, mas vale a pena. Quando algum dia voc se deparar com alguma desgraa, faa como seu av, pense na beleza e nas coisas boas da vida, anula ou pelo menos empata o sentimento de perda.
Existe uma seqncia de fases, ciclos em nossa existncia: infncia, adolescncia, juventude, meia-idade, maturidade, velhice. Temos que aceit-las como so e no como queramos que fossem, o passar do tempo inexorvel. Veja voc, querida Beatriz, meu corpo est perto da velhice, 68 anos, mas a cabea, meu corao, pensa, sente, como jovem, sou ainda capaz de me indignar, de amar, de sonhar, de cantar. s vezes o corpo no ajuda a curtir a vida e a felicidade, nossos maiores patrimnios, mas devemos no mnimo se esforar. A vida nosso maior bem. nossa obrigao lutar constantemente em busca da felicidade.
Outro poeta, Lulu Santos, comparou a vida com as ondas do mar: 'Nada do que foi ser... De novo do jeito que j foi um dia... Tudo passa... Tudo sempre passar... A vida vem em ondas... Como um mar... Num indo e vindo infinito... Tudo muda o tempo todo... No mundo... No adianta fugir... Nem mentir... Pra si mesmo agora... H tanta vida l fora... Aqui dentro sempre... Como uma onda no mar.' O segredo escolher as ondas que servem para surfar sua alma, seu corao, sua vida. Mas, nunca esquea as pessoas amadas, fique junto!!! Ah, minha netinha Beatriz, seu nome to lindo que o maior poeta de minha gerao, Chico Buarque, escreveu esses versos: 'Sim, me leva pra sempre, Beatriz... Me ensina a no andar com os ps no cho... Para sempre sempre por um triz... A, diz quantos desastres tem na minha mo... Diz se perigoso a gente ser feliz'. Que bonito!!!!! Ontem conversando com um velho amigo de 94 anos, Osas Cardoso, cheio de alegria ele me confessava: o que mais gosta na vida, a prpria vida. Venha Beatriz, venha viver a vida, sem a vergonha de ser feliz seja uma eterna aprendiz. Venha para essa maravilhosa experincia, nica, vibrante, essa aventura mgica e bela que viver. E guarde com carinho essa crnica que seu jovem, velho av escreveu. Se um dia voc estiver triste, triste que no tiver jeito, console-se, leia esses escritos. Eles foram inspirados na alegria, na felicidade de seu primeiro sorriso.

POR QUEM OS SINOS DOBRAM

Passei o ltimo natal com meus netos na bela cidade de Gramado. Tenho bons amigos gachos, alis, irmos, pois companheiros de Escola Militar se tornam irmos. Tenho muitos irmos. E foi com carinho que o coronel Canto e sua Iramaia ofereceram um belo churrasco em sua aconchegante casa no condomnio Lage da Pedra. Para maior surpresa e satisfao, meu irmozinho Alcebades Schenkel, mesmo adoentado, enfrentou 300 km de Cachoeira do Sul at Gramado para me dar um abrao, trouxe ainda um borrego novinho para o churrasco, meus netos devoraram. Eu fiquei emocionado com o gesto do Bido, disse-lhe que eu iria Cachoeira, ele me respondeu que estava doido para me ver, dar um abrao. Foram dois dias de carne e vinho. Marcamos encontro para maio no Uruguai. Na despedida um forte abrao. Ao chegar ao hotel, chorei, falei para minha mulher que aquela tinha sido a ltima vez que estive com Bido. Aquele tinha sido o ltimo abrao.
Semana passada confirmou-se minha 'premonio', recebi telefonema do General Gualter, Bido morreu. Parei meu computador, cruzei os braos por cima, chorei feito um menino, at que minha filha Vanda percebeu, veio me consolar. Contei para ela o significado daquela amizade.
Foi no incio de 1959 entramos alegres, vibrando na Academia Militar das Agulhas Negras. Alguns amigos com vivncia de trs anos da Escola Preparatria de Fortaleza e agora novos amigos vindos de todos os cantos do Brasil. Dentre eles, um logo se destacou na maneira espontnea de ser, na alegria, na sinceridade. Dei-me bem com a gauchada e o Cadete Schenkel, j despontava um lder entre ns. Nossa amizade iniciou naquele ano com andanas na cidade de Resende, cavalgadas em fim-de-semana pelo Vale do Paraba, e como ningum de ferro, em vez em quando uma passada pelas boates das redondezas. Aprendi muita coisa com Bido, ele adorava corrida de cavalo, ensinou-me tudo. No final do ano eu j apostava bem no Grande Prmio Brasil em Narvik e Farwell, os dois grandes cavalos daquela poca. No segundo ano Bido foi para Artilharia, eu para Infantaria, mas a amizade continuou. Certa vez houve uma briga, dessas que s se v em cinema, na Boate Casablanca, cadetes x camioneiros. Quando apareceu a patrulha da AMAN, ns fugimos. Ao pular uma janela levei uma cadeirada na cabea, desmaiei. Coelho e Bido voltaram para me acudir, levaram-me nas costas. Sangrava muito, pedi que me deixassem, preferia ser preso, apresentei-me patrulha. Peguei 15 pontos na cabea e 15 dias de xadrez. Bido toda noite me levava pizza na priso.
Samos aspirantes cada qual para um lado, mas nunca deixamos de ter alguma notcia. Nesses ltimos 15 anos, nossa turma da AMAN, tem realizado reunies anuais. Temos nos visto com mais assiduidade. Foi nesses encontros, que Vnia, conheceu melhor meus amigos de Escola Militar, ela sempre comenta a beleza dessa amizade, do bem querer que existe entre ns, com maior respeito s opinies de cada um. Schenkel ao se reformar do Exrcito foi ser fazendeiro em Cachoeira do Sul. Visitei a Fazenda Farroupilha, meu amigo era bom administrador e foi um excelente oficial do Exrcito.
Antigamente quando morria uma pessoa os sinos da Igreja tocavam, dobravam pelo ser humano que havia morrido. O poeta John Donne escreveu um poema: 'Nenhum homem uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem parte do continente, parte do todo, assim como se fosse uma parte de seus amigos; a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti'.
As cidades cresceram, a tradio dos sinos na hora da morte acabou. Contudo, desde a tarde de sete de fevereiro eu ouo os sinos tocarem, os sinos dobram nos meus tmpanos, no corao, l dentro da alma. Foi-se um amigo, est se indo uma gerao. Gerao de homens formados nos ltimos anos romnticos da humanidade. E no pergunte por quem os sinos dobram, eles dobram no apenas pelo Bido, dobram por Neuza, por Mrcia e Andr. Eles dobram pelo Uchoa, por Anade, pelo Muxfeldt e Cristina. Eles dobram por todos os amigos, pela nossa gerao, pela turma da Academia Militar das Agulhas Negras de 1961, pelo Camura, Rubio, pelos colegas da EPPA e EPF, Bido era cidado honorrio arataca. Os sinos dobram pelo Exrcito Brasileiro, dobram por mim, por ti, por todos ns.

POR QUEM OS SINOS DOBRAM

Passei o ltimo natal com meus netos na bela cidade de Gramado. Tenho bons amigos gachos, alis, irmos, pois companheiros de Escola Militar se tornam irmos. Tenho muitos irmos. E foi com carinho que o coronel Canto e sua Iramaia ofereceram um belo churrasco em sua aconchegante casa no condomnio Lage da Pedra. Para maior surpresa e satisfao, meu irmozinho Alcebades Schenkel, mesmo adoentado, enfrentou 300 km de Cachoeira do Sul at Gramado para me dar um abrao, trouxe ainda um borrego novinho para o churrasco, meus netos devoraram. Eu fiquei emocionado com o gesto do Bido, disse-lhe que eu iria Cachoeira, ele me respondeu que estava doido para me ver, dar um abrao. Foram dois dias de carne e vinho. Marcamos encontro para maio no Uruguai. Na despedida um forte abrao. Ao chegar ao hotel, chorei, falei para minha mulher que aquela tinha sido a ltima vez que estive com Bido. Aquele tinha sido o ltimo abrao.
Semana passada confirmou-se minha 'premonio', recebi telefonema do General Gualter, Bido morreu. Parei meu computador, cruzei os braos por cima, chorei feito um menino, at que minha filha Vanda percebeu, veio me consolar. Contei para ela o significado daquela amizade.
Foi no incio de 1959 entramos alegres, vibrando na Academia Militar das Agulhas Negras. Alguns amigos com vivncia de trs anos da Escola Preparatria de Fortaleza e agora novos amigos vindos de todos os cantos do Brasil. Dentre eles, um logo se destacou na maneira espontnea de ser, na alegria, na sinceridade. Dei-me bem com a gauchada e o Cadete Schenkel, j despontava um lder entre ns. Nossa amizade iniciou naquele ano com andanas na cidade de Resende, cavalgadas em fim-de-semana pelo Vale do Paraba, e como ningum de ferro, em vez em quando uma passada pelas boates das redondezas. Aprendi muita coisa com Bido, ele adorava corrida de cavalo, ensinou-me tudo. No final do ano eu j apostava bem no Grande Prmio Brasil em Narvik e Farwell, os dois grandes cavalos daquela poca. No segundo ano Bido foi para Artilharia, eu para Infantaria, mas a amizade continuou. Certa vez houve uma briga, dessas que s se v em cinema, na Boate Casablanca, cadetes x camioneiros. Quando apareceu a patrulha da AMAN, ns fugimos. Ao pular uma janela levei uma cadeirada na cabea, desmaiei. Coelho e Bido voltaram para me acudir, levaram-me nas costas. Sangrava muito, pedi que me deixassem, preferia ser preso, apresentei-me patrulha. Peguei 15 pontos na cabea e 15 dias de xadrez. Bido toda noite me levava pizza na priso.
Samos aspirantes cada qual para um lado, mas nunca deixamos de ter alguma notcia. Nesses ltimos 15 anos, nossa turma da AMAN, tem realizado reunies anuais. Temos nos visto com mais assiduidade. Foi nesses encontros, que Vnia, conheceu melhor meus amigos de Escola Militar, ela sempre comenta a beleza dessa amizade, do bem querer que existe entre ns, com maior respeito s opinies de cada um. Schenkel ao se reformar do Exrcito foi ser fazendeiro em Cachoeira do Sul. Visitei a Fazenda Farroupilha, meu amigo era bom administrador e foi um excelente oficial do Exrcito.
Antigamente quando morria uma pessoa os sinos da Igreja tocavam, dobravam pelo ser humano que havia morrido. O poeta John Donne escreveu um poema: 'Nenhum homem uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem parte do continente, parte do todo, assim como se fosse uma parte de seus amigos; a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti'.
As cidades cresceram, a tradio dos sinos na hora da morte acabou. Contudo, desde a tarde de sete de fevereiro eu ouo os sinos tocarem, os sinos dobram nos meus tmpanos, no corao, l dentro da alma. Foi-se um amigo, est se indo uma gerao. Gerao de homens formados nos ltimos anos romnticos da humanidade. E no pergunte por quem os sinos dobram, eles dobram no apenas pelo Bido, dobram por Neuza, por Mrcia e Andr. Eles dobram pelo Uchoa, por Anade, pelo Muxfeldt e Cristina. Eles dobram por todos os amigos, pela nossa gerao, pela turma da Academia Militar das Agulhas Negras de 1961, pelo Camura, Rubio, pelos colegas da EPPA e EPF, Bido era cidado honorrio arataca. Os sinos dobram pelo Exrcito Brasileiro, dobram por mim, por ti, por todos ns.

biografia:
Carlito Lima

Ex-capito do Exrcito, ex-prefeito de Barra de S. Miguel [Al], engenheiro, ambientalista, descobriu seu talento de escritor s aos 61 anos quando em 2001, por insistncia de amigos, foi editado seu primeiro livro de memrias, testemunho sbrio, meticuloso, forte, sincero, humano e bem humorado: 'CONFISSES DE UM CAPITO'. Destemido depoimento de um oficial do Exrcito com enfoque especial sobre 1964. Carlito Lima servia na 2 Cia de Guardas no Recife, teve convivncia com presos polticos como Arraes, Julio, Paulo Freire, Pelpidas Silveira, Gregrio Bezerra entre outros.
A revista paulista CULT, colocou CONFISSES DE UM CAPITO, entre os 14 melhores livros na bibliografia sobre o golpe militar de 1964.
O livro foi sucesso em todo o Brasil aps entrevista de Carlito Lima no programa do J Soares.
Descoberto como excelente contador de histria, escreve h cinco anos uma coluna semanal, HISTRIAS DO VELHO CAPITA, em vrios jornais com histrias bem humoradas da vida real.
Em 2005 comeou a editar a revista eletrnica semanal ESPIA na Internet com opinies, dicas, notcias e muito bom humor, enviada por E-Mail. Fazendo sucesso nas pginas virtuais.

O monumento vivo de Macei e suas histrias
[03/11/2006]

Escrever sobre Carlito Lima um exerccio lingstico. contar a histria de quem faz a histria viva do povo maceioense. Afinal, como o prprio 'velho capita' ou Duque de Jaragu coloca: 'Um local no feito de prdios, ruas e espaos, mas acima de tudo da alma de um povo'.

Pois bem, o escritor Carlito Lima uma antena a captar os detalhes dos personagens que compuseram Macei ao longo do tempo. Atento, intelectual, bomio, bem-humorado e astuto, o narrador do povo o responsvel pelos maravilhosos trechos de nosso tempo que os historiadores oficiais esqueceram de contar.

isto que possvel ver em Viventes de Macei, a nova obra de Carlito Lima, que este ms lana dois livros. Alm do j citado, o Duque de Jaragu brinda os alagoanos com a biografia do ex-governador Ronaldo Lessa, com uma narrativa de quem estava dentro do nascimento do homem poltico, desde a turma de Engenharia Civil, em que ele e Lessa estudaram juntos. Com as duas recentes obras, Carlito Lima chega ao stimo livro sem perder o flego de um escritor iniciante e a paixo pelas letras, mas demonstrando maturidade com a escrita. Um intelectual sem as frescuras do intelectualismo. A simples linguagem viva e ambulante do povo, que atravessa o tempo. Carlito Lima - em suas obras - se firma como o Clssico do nosso presente.

Ao descrever o porqu de recompor histrias sobre os personagens de Macei, o escritor diz que decidiu 'radiografar a cidade por meio de suas almas', o que considera mais importante e que segue os passos de Mestra Graa, nesta rdua tarefa. 'Comecei a escrever o livro a partir da idia tida por Graciliano Ramos ao fazer Viventes de Alagoas. Decidir ento pelo ttulo de Viventes de Macei, como uma referncia. Busquei pessoas que construram esta cidade, em todos os sentidos, mas que no so lembradas. Por exemplo, fiquei assustado ao dar uma palestra no bairro do Benedito Bentes e perceber que as pessoas no conheciam quem foi o homem que d nome ao local onde eles moram'.

A surpresa de Carlito Lima deu origem 'necessidade de juntar coisas de Macei e falar de seus personagens histricos. Ir alm dos seus prdios, sentir a alma de seu povo'. Em Viventes de Macei, Lima resgata o sentimento de nascer na Terra dos Marechais e conta histrias, com paisagens e smbolos que o tempo deixou para trs. Uma destas o conto sobre a amante do saudoso ex-governador Costa Rego. 'Ele tinha uma amante francesa. O povo ficou revoltado porque ele a colocou em uma residncia aqui em Macei, gerou muitos comentrios. Em 1939, o capito Mrio Lima comprou esta casa e foi morar l com a famlia. Um ano depois, nasce um menino bonitinho e rosado naquele lar. Nasce o Carlito Lima. Eu. Nasci na casa da amante do governador [risos]', revela.

Ainda que Viventes de Macei retome um tom saudosista, Carlito Lima no se assume nostlgico. 'No tem um qu de saudosista ou de personagem nostlgico. No mesmo. Eu falo do passado, resgato estas histrias, mas gosto mesmo de viver o presente. Reconheo as belezas da vida de hoje, como por exemplo, as coisas novas e lindas da nossa Macei de agora. Entre elas, destaco a praia da Pajuara. Em nenhum lugar do mundo existe algo to lindo. As coisas modernas tambm so muito boas'.

No entanto, ao falar da Macei de hoje, o escritor lamenta a destruio de cones de nossa cultura e diz que as pessoas responsveis deveriam estar na cadeia. 'Falo sobre isto no livro. H uma srie de tragdias alagoanas com um patrimnio que pertencia aos maceioenses, como os Sete Coqueiros, que deixaram cair, como a Casa Rosa, que no mais existe e que futuras geraes jamais podero ver. Como deixaram estes lugares sumir. Faziam parte da alma do povo de Macei. Cito o Gog da Ema, a Cadeia Pblica, enfim. Os responsveis por tudo isto deveriam ir para a cadeia. Mas h coisas lindas tambm em nossa atualidade', sentencia.

Para Carlito Lima a unio entre o povo e as belezas naturais fazem de Macei , 'a cidade mais linda do mundo'. agarrado a este sentimento, que Viventes de Macei tenta definir o que ser maceioense, j que para Carlito Lima um sentimento que vai alm das palavras. 'Rapaz, recebi certa vez um e-mail que dizia que ser maceioense morar a duas quadras da praia, seja em qualquer lugar da cidade. Que definia o maceioense como aquele que no se preocupa com os congestionamentos da Tiet, por exemplo. Achei interessante e coloquei que vai muito alm. olhar o pr-do-sol e saber que se estar no paraso. poder escutar Jnior Almeida, Maclim e outros. lindo', coloca.

Ao descrever Macei, Carlito Lima lembra que tomou banho no Riacho Salgadinho ao lado de Cac Diegues, quando garoto. 'Pescvamos juntos. Fomos uma gerao privilegiada, pela boemia, o intelectualismo e a minha gerao era muito ligada ao sexo. Fizemos quadrilhas com prostitutas. Agora, reconheo que a juventude de hoje em dia tambm tem a sua vantagem, entre elas, a evoluo da gentica e as questes da sade. Na minha poca chegar aos 50 era estar velho, hoje eu me sinto jovem ainda e no h mais esta viso', coloca.

Mesmo falando de uma 'gerao privilegiada', o escritor crer que ainda h espao para a boemia e a boa intelectualidade em Macei. 'H espao sim. Tem o Bar da Zefinha, no Jaragu, muita gente se encontra l e vejo que h este ambiente ainda aberto para a ideologia, mesmo sendo diferente da nossa poca. At a prostituio hoje diferente. Na poca era reduto de pensadores. Hoje em dia com ponto, endereo no jornal, etc. Nos antigos redutos a gente via senadores, deputados, influentes. Era chique. Terminvamos a boemia ao lado das garotas de programa. Havia em nossos encontros uma questo poltica. Vivemos uma revoluo de costumes'.

Ao ser indagado sobre tal revoluo, Carlito Lima diz que 'aquela gerao passou por uma reformulao de valores'. 'Na minha poca ningum transava com a namorada, por exemplo, e as discusses polticas eram fortes e ligadas a ideologias. Na faculdade, ningum falava comigo porque eu era do Exrcito, sofri discriminao e s consegui entrar na turma e ter amizade, inclusive com o Ronaldo Lessa, depois'.

'Tem at uma histria interesse, sobre uma boate em Riacho Doce, a Zinga Bar, que era maravilhosa e ficava a beira-mar. Foi uma revoluo dos costumes femininos em Macei. Era um local aonde as moas de famlia iam, porque no era prostbulo. Comeou a mudar muita coisa. Tenho saudades deste local. No sei porque acabou. Era muito bom', destaca o contador de histrias.

O Carlito bigrafo

No segundo livro lanado, A Caminhada de um Guerreiro, Carlito Lima retrata a trajetria de Ronaldo Lessa. 'Meu objetivo inicial era fazer um livro sobre os ltimos governadores do Estado de Alagoas, mas quando comecei minhas pesquisas percebi um material extenso e resolvi lanar um por vez. O projeto inicial se chamaria Briga de Foice. Comecei pelo Lessa porque convivi com ele na faculdade e acompanhei de perto o processo. Eu aponto qualidades e alguns erros, mas vejo da minha tica, quem v diferente que escreva outro livro', destaca.

'Os historiadores dizem que um momento histrico ou um poltico s pode ser analisado 40 anos depois, quando somem os resqucios de emoo e fica s a razo. Pois bem, eu me antecipo ao que ser dito daqui alguns anos. O Ronaldo Lessa marcou uma era em Alagoas, com novas obras. O Lessa desenvolveu um sentimento de orgulho por ser alagoano. Coisa que o povo havia esquecido', diz.

Conforme Carlito Lima, o livro descreve os passos de Lessa desde a liderana estudantil at o perodo em que deixou o Governo de Alagoas para se candidatar ao Senado Federal. 'Avalio a poca em que Lessa esteve no poder como um perodo de avanos. Destaco o que foi feito pelo turismo, que isso j bastou para fazer valer o governo dele. O Lessa foi mais estadista que poltico. O poltico pensa apenas nas prximas eleies, o estadista nas geraes vindouras. O Lessa foi poltico tambm. Teve que acender velas ao diabo, como por exemplo, as negociaes com a Assemblia Legislativa. Mais sei que ele fez isto constrangido, pois caso contrrio no governaria', avalia.

Segundo o bigrafo, o ex-governador nasceu em uma madrugada chuvosa e depois veio a bonana. 'O nascimento de Lessa representa uma metfora poltica da forma como ele assumiu o Estado de Alagoas e como saiu. Claro que ainda h muito que fazer', sentencia.

Quanto ao final da Era Lessa, o escritor analisa: 'Eu enxergo com tristeza a forma como as esquerdas esto deixando p poder. As foras de esquerda sempre foram muito desunidas. Elas s se unem mesmo dentro da cadeia [risos]. Deixaram escapar o Governo de Alagoas. No quero culpar ningum, mas ao desentendimento entre si. Para mim algo triste no ter nascido dentro do prprio governo algum para substituir o Lessa. No livro eu digo isto', finaliza Carlito Lima.

A HISTRIA DO BARO DE JARAGU

No final do sculo XIX os ricos comerciantes construram casares avarandados em frente aos trapiches da praia do aterro em Jaragu. Fachadas ornadas com primeiro e segundo andares, estilo arquitetnico europeu. Serviam para estabelecimentos comerciais e moradias.

Por ser local mais adequado, um ancoradouro natural, Jaragu foi contemplado com uma ponte de embarque de navios e barcaas, alem dos trapiches existentes.

A Ponte de Jaragu efervesceu o movimento comercial da regio. Inclusive foi um dos motivos da transferncia da capital do Estado, da ento cidade de Santa Maria Madalena da Alagoa do Sul, hoje Marechal Deodoro, para Macei.

Cais, porto, ancoradouro, ponte de embarque atraem biroscas, bares e cabars. A regio comercial de Jaragu foi se transformando em ponto bomio. Os moradores dos casares, famlias das mais distintas e conservadoras, mudaram-se para outros bairros, abandonando aquelas moradias para o comercio.

Foi nesse momento que os belos casares viraram casas noturnas, boates, puteiros. Esses lupanares abrigavam raparigas refinadas. Muitas importadas da Europa, Frana, Bahia e do serto nordestino.

As prostitutas ficaram mais de 60 anos naqueles estabelecimentos, trabalhando com o suor de seu corpo. Fazendo a vida na mais velha das profisses. Ao mesmo tempo conservaram esse patrimnio arquitetnico e histrico da cidade de Macei, o bairro de Jaragu.

Por essa razo alguns bomios da cidade resolveram homenagear as prostitutas que ali moraram, preservaram e legaram para outras geraes os casares de Jaragu. Afixaram o MEMORIAL PUTA DESCONHECIDA em uma rua. Um gesto merecedor e reparador.

Sou fruto de Jaragu. Nasci e me criei nesse bairro onde originou Macei. Aprendi a andar nas areias da praia e a nadar no mar azul-esverdeado da Avenida da Paz.

Em minha juventude fui assduo freqentador daqueles lupanares, mesmo que, s para tomar uma cerveja ou ouvir msica dos conjuntos afinados que tocavam para os clientes movimentarem-se com as meninas. Foi com elas que aprendi a danar bolero, ch-cha-ch, mambo ou o difcil tango argentino.

Os nomes dos cabars eram expressivos: Alhambra, Tabaris, Night and Day. Nas ruas circulares ficavam os puteiros da ZBM, ou seja, Zona do Baixo Meretrcio, freqentado pela populao mais pobre. Duque de Caxias e o Verde eram os 'randevus' mais conhecidos da ZBM.

Quando os bairros de Pajuara, Ponta Verde se tornaram mais habitados pela burguesia, houve uma forte presso das madames para tirar a zona de Jaragu. Sentiam-se incomodadas. Ao se deslocarem at ao centro e outros bairros, inevitavelmente passavam pelo corredor de prostbulos.

Em 1969 o ento Secretrio de Segurana Pblica Coronel Adauto mandou transferir todos os cabars de Jaragu para regio do Cana no Tabuleiro dos Martins.

A partir desse momento alguns casares foram derrubados pelas imobilirias e construtoras. Construram prdios de gostos duvidosos como o BRADESCO e a COMISPLAN. At que intelectuais e artistas liderados por nio Lins, Pierre Chalita e Solange Lages conseguiram tombar o bairro de Jaragu.

Sem esse movimento da comunidade artstica, nada mais restaria dos casares que as putas conservaram por mais de 60 anos.

Em 1990, a AMAPAZ, Associao dos Amigos da Avenida da Paz, iniciou um movimento para despoluir o Riacho Salgadinho e a prpria praia da Avenida.

Durante uma visita do ento Presidente Fernando Collor foram colocadas faixas e cartazes em seu trajeto. No roteiro do presidente sempre havia faixas pedindo a despoluio do Salgadinho. O presidente prometeu atender.

Com um ms, a Ministra Margarida Procpio apresentou o projeto de despoluio do Salgadinho. Junto, includo, veio tambm o projeto de Revitalizao do bairro antigo de Jaragu.

Mas foi Ronaldo Lessa, como prefeito, que conseguiu com o BID financiamento e tocou a obra. Hoje Jaragu restaurado um ponto de encontro de turista e bomios de Macei.

Por conta dos velhos tempos e por ter participado, de certa forma, na recuperao do velho e bonito bairro bomio de Jaragu, a Liga de Blocos Carnavalescos de Macei me conferiu o ttulo de DUQUE DE JARAGU. O qual uso orgulhoso nos meus escritos, na minha identidade. O diploma de Duque fica bem visvel, com muita honra, na parede de minha sala, como uma homenagem ao bairro onde nasci e me criei. Vivi e vivo Jaragu.

carlitoplima@uol.com.br

 

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